Mais de 130 mil pessoas passaram pelos pavilhões do Centro de Eventos do Ceará entre os dias 25 e 27 de junho. Foi durante a primeira edição da PEC Brasil, entre leilões, congressos de raças e rodadas internacionais de negócios. Nesse palco, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec) repetiu uma meta ambiciosa: dobrar as exportações do agro cearense. Hoje, o valor exportado está na casa dos US$ 500 milhões. Até 2030, a meta é chegar a US$ 1 bilhão.
Essa meta não é novidade. Porém, ela ganhou força nos últimos meses. Isso porque a Faec passou a articular parcerias com o Ministério da Agricultura, com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e com a Apex-Brasil. Para o presidente da Faec, Amílcar Silveira, o objetivo é totalmente alcançável. Segundo ele, isso depende de um esforço conjunto entre produtores, entidades de classe, iniciativa privada e governo.
A meta que pode dobrar as exportações do agro cearense
O plano não depende de um único produto. Ao contrário, ele aposta na diversificação de uma pauta que já inclui castanha de caju, cera de carnaúba, frutas irrigadas, pescado e mel. Além disso, a lista soma camarão, frango, carne bovina e, mais recentemente, ovinos e caprinos voltados ao mercado muçulmano.
Parte dessa estratégia depende da ocupação de terra ociosa. Segundo o secretário-executivo do Agronegócio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), Sílvio Carlos, o estado tem cerca de 29 mil hectares ociosos nos perímetros irrigados. O Dnocs gerencia a maior parte dessas áreas. Se o Ceará ocupar essa faixa, o valor bruto da produção pode crescer em bilhões de reais.
Os perímetros do Vale do Jaguaribe, da Chapada da Ibiapaba e do Baixo Acaraú entram como prioridade nesse movimento. Nessas regiões, a fruticultura irrigada e a carcinicultura já crescem de forma consistente. Por isso, há espaço técnico para receber novas culturas de alto valor agregado, como berries e café especial.
Castanha de caju, mel e carnaúba puxam a exportação do agro cearense
Entre as cadeias já consolidadas, a castanha de caju segue como um dos maiores símbolos da exportação cearense. Ao lado dela estão a cera de carnaúba e a água de coco, produto que o Ceará mais exporta no país. O estado também ocupa a quinta posição entre os maiores exportadores nacionais de frutas.
Para essas cadeias, a meta da Faec não é só sobre volume. Na verdade, ela também é sobre qualificação. Silveira já afirmou publicamente que, hoje, praticamente só os grandes produtores conseguem exportar direto. Por isso, parte do trabalho da federação, ao lado da CNA e do Senar, é justamente preparar pequenos e médios produtores para esse mercado.
Sobretaxa dos EUA ameaça a meta de exportação do agro cearense
Nem tudo caminha na direção esperada. Em agosto de 2025, os Estados Unidos passaram a aplicar uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros. A medida atinge diretamente castanha de caju, pescado e cera de carnaúba, cadeias centrais da exportação cearense. Como resultado, exportadores cearenses deixaram de embarcar contêineres de castanha e viram volumes de pescado pararem no pátio.
Antes da tarifa, o setor vinha crescendo 25% em 2025. Esse ritmo reforçava a viabilidade da meta de US$ 1 bilhão até 2030. Com a sobretaxa, porém, a própria Faec passou a tratar essa previsão como incerta. Por isso, a entidade negocia agora, junto ao governo federal, medidas como a retomada do Reintegra e a flexibilização de linhas de crédito para exportação.
O que a meta de exportação do agro muda para o pequeno produtor
Para quem produz em escala menor, o momento pede atenção dobrada. De um lado, existe um movimento real de qualificação e abertura de mercado. Entidades como Faec, CNA e Sebrae organizam capacitação e rodadas de negócios voltadas justamente a quem ainda não exporta direto. De outro lado, o cenário externo segue instável. Isso pode redirecionar parte da produção para o mercado interno, caso surjam novas barreiras comerciais.
Na prática, isso significa uma mudança real. O pequeno produtor cearense que hoje vende para intermediários ou para o mercado regional tem, pela primeira vez em anos, um caminho institucional até o mercado externo. Porém, esse caminho exige adequação sanitária, organização em cooperativa ou associação e acompanhamento técnico contínuo.
A meta de dobrar as exportações do agro cearense até 2030 não depende só de números favoráveis lá fora. Ela também depende de quanto o estado consegue transformar isso em oportunidade concreta para quem planta, cria e beneficia em menor escala. Afinal, é esse desdobramento, mais do que a meta em si, que vai definir se o Ceará se torna a potência agroexportadora que a Faec projeta.












