Ronald Andrade segura um pedaço de rocha bruta na palma da mão. É calcário agrícola, extraído da pedreira da família em Alcará, no sertão do Ceará. Ele passa a pedra adiante para os produtores sentirem a dureza. Em seguida, mostra outra amostra: a mesma rocha, já moída, com a textura fina de uma fécula de mandioca. “É daqui que eu tiro o meu negócio”, diz. Assim, a cena ajuda a entender por que ele passou a tratar a pecuária de corte no sertão como se fosse uma pedreira da família.
A cena foi registrada durante o EPROCE de setembro. Por isso, ela é o ponto de partida para explicar uma mudança de lógica. Uma fazenda de pecuária de corte no sertão cearense passou a ser administrada como se fosse uma mineradora.
Da pedreira à pecuária de corte no sertão: tentativa e erro antes da solução
A fazenda pertence à família de Ronald desde 1972. Por décadas, foi terra de gado rústico. Depois, a família apostou alto no cajueiro precoce, um dos primeiros plantios da variedade na região de Alcará. Não deu certo. Ainda em 1998, o adubo químico aplicado por orientação de consultoria, somado à pouca chuva daquele ano, matou boa parte das mudas recém-plantadas. A família replantou e insistiu. Mas, em 2017, uma praga de mosca-branca dizimou o que restava do pomar. Isso aconteceu porque o cajueiral estava em floração e não podia ser pulverizado com veneno.
Foi essa dupla frustração que levou Ronald a uma conclusão simples. Quem dá lucro é o boi, é o que a terra e a chuva têm para oferecer. Na região de Alcará, chove em média 600 milímetros por ano. Por isso, insistir em uma cultura que exige mais água do que o clima local oferece era remar contra a maré. Assim, a pecuária, ajustada à realidade da chuva da região, passou a ser o centro do negócio.
O que a mineração ensinou sobre enxergar números
O diferencial da fazenda de Ronald não está na genética do gado nem em maquinário de ponta. Na verdade, está em uma forma de enxergar custos que ele trouxe direto da mineração da família. Na pedreira, cada etapa do processo (a extração, as escavadeiras, os caminhões, os moinhos) é tratada como um centro de custo independente. Cada uma, por sua vez, precisa atingir uma margem de lucro própria, mesmo quando tudo pertence à mesma empresa.
Levada à fazenda, a lógica é simples: cada trator, cada hectare de pasto e cada etapa de colheita de capim precisa “se pagar” sozinho. É como se cada um fosse alugado de terceiros. Durante a apresentação, Ronald resumiu a lógica em uma frase. “Eu coloquei o valor da hora do trator como se o trator fosse do amigo aqui que está olhando para mim no exato momento.”
Se ele não fizesse essa simulação, o custo real de cada operação ficaria escondido dentro do caixa geral da fazenda. Com isso, decisões erradas continuariam sendo tomadas sem que ninguém percebesse onde estava o prejuízo.
Na prática, isso significou dividir a propriedade em setores de pastagem, à semelhança de como uma pedreira organiza suas frentes de lavra. Também passou a instalar pluviômetros simples, de cerca de R$ 8 cada, em toda área. Além disso, passou a exigir uma análise de solo antes de qualquer adubação, com custo de cerca de R$ 80. Só depois decidia onde valia a pena corrigir a terra com calcário. E converteu parte da colheita de capim em processo mecanizado, com silagem, em vez de depender apenas do pastejo livre do gado.
O que muda para a pecuária de corte no sertão com pouca terra
O impacto prático dessa conta é o que interessa ao pequeno e médio produtor cearense. Porém, a crença comum é a de que a pecuária de corte no sertão só é viável em grandes extensões.
A experiência de Ronald sugere outro caminho. Com setorização, análise de solo, silagem e suplementação calculadas, mesmo uma propriedade de 50 hectares pode sustentar um rebanho de corte rentável. Ainda assim, não é preciso depender de renda externa para se manter. De fato, a fazenda de 400 hectares da família já vem comprovando isso ao longo dos últimos anos.
Quem sai ganhando é o produtor que hoje maneja o pasto “no olho”. Ele não tem dado de chuva, não faz análise de solo e não controla custo por setor. Por isso, para esse produtor, adaptar-se significa investir pouco antes de investir muito: um pluviômetro de R$ 8, uma análise de solo de R$ 80. Já quem trata a fazenda como um bloco único, sem comparar o desempenho de cada área, tende a ficar preso ao modelo antigo. Com isso, colhe o pasto uma única vez e perde boa parte do potencial produtivo da própria terra.
O que vem a seguir
Com a meta de pastagem em andamento, Ronald e o agrônomo que o acompanha na fazenda começam agora a testar o cultivo de palma forrageira. A previsão, aliás, é alcançar até 300 toneladas por hectare ao ano. Assim, é a mesma lógica de custo por etapa, agora aplicada a uma nova frente. O objetivo é reduzir ainda mais a dependência de ração comprada de fora durante o período seco.












