Xico Graziano

O erro brasileiro diante do tarifaço de Trump

Faltou ao Brasil antecipação para negociar a nova realidade comercial; protecionismo estava no centro da campanha republicana Donald Trump está cumprindo exatamente o que prometeu fazer: taxar as importações norte-americanas. Implementar uma política econômica protecionista nos EUA era um dos pilares essenciais de sua campanha em 2024. Daí, deriva o fato político mais notável nessa […]

Contêineres de exportação em porto, representando o comércio internacional agrícola

Faltou ao Brasil antecipação para negociar a nova realidade comercial; protecionismo estava no centro da campanha republicana

Donald Trump está cumprindo exatamente o que prometeu fazer: taxar as importações norte-americanas. Implementar uma política econômica protecionista nos EUA era um dos pilares essenciais de sua campanha em 2024.

Daí, deriva o fato político mais notável nessa história do tarifaço de Trump sobre as exportações brasileiras: Trump falava a verdade. No Brasil, onde o programa de candidatos presidenciais costuma ser uma quimera, a ameaça foi desprezada. Mas não era conversa fiada.

Mais que promessa de campanha, desde quando assumiu, pela 2ª vez, o poder nos EUA, Trump passou a executar seus projetos, colocando em prática o slogan “Make America Great Again”. Nesse contexto, estava claro que o multilateralismo comercial seria aniquilado.

Por que o governo brasileiro não se preparou para enfrentar essa nova fase do comércio internacional? Aqui reside a grande questão.

Era notório o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio, organismo que regula o comércio global. Desde Barack Obama se acusava os juízes do Órgão de Apelação da OMC de prejudicarem o interesse dos EUA.

Acordos bilaterais, que já aconteciam, passaram a prevalecer nas estratégias diplomáticas das nações. Assim avançou o agronegócio brasileiro na conquista de mercados, especialmente a partir do governo de Jair Bolsonaro, com a (atual) senadora Tereza Cristina no comando do Ministério da Agricultura.

No setor industrial, o tradicional protecionismo, herdado da época de Getúlio Vargas, amarrou a ousadia necessária para conquistar fatias do mercado mundial. Protegida da concorrência global, a indústria brasileira tomou poeira no avanço tecnológico. Quem progrediu, e se abriu ao mundo, teve sucesso. Vide a Embraer.

Afora o oportunismo eleitoral, o choramingo brasileiro sobre o tarifaço de Trump reflete uma visão atrasada do governo sobre as relações internacionais. Tal visão “terceiro-mundista” domina o pensamento da esquerda latino-americana há, pelo menos, 60 anos, desde os tempos em que a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe propunha políticas para enfrentar o chamado “imperialismo norte-americano”.

Originalmente de viés socialista, essa visão ideológica pauta também muitos líderes políticos da direita que, embora supostamente liberais, endossam o antigo protecionismo verde-amarelo. É contraditório, mas é o Brasil.

O governo de Lula ficou enrolando com a barriga o tarifaço imposto por Trump, avaliando tão somente seu custo político-eleitoral. Assim também procedeu Flávio Bolsonaro. Frente ao perigo real, que exigia negociar de verdade, permanecemos embromando.

Embaixador brilhante, Rubens Barbosa colocou a questão desta forma: “Essas tarifas representam uma mudança da posição americana no comércio internacional. E é algo contra o mundo inteiro, não contra o Brasil. A motivação dessa tarifa tem como objetivo muito claro atrair investimentos para o território americano, reduzir o desequilíbrio da balança comercial e afastar a China de alguns mercados”.

Críticas sobre o Pix, ou sobre desmatamento e trabalho escravo, são meras distrações na política comercial trumpista. Marco Rubio blefa como num jogo de truco caipira. No fundo, Trump não está nem aí para Lula ou Bolsonaro.

Um exemplo pedagógico: a carne bovina brasileira ficou excluída do tarifaço dos EUA. Mesmo contra a ferrenha posição dos fazendeiros norte-americanos, que são sua base de apoio, Trump deixou aberta a porta às importações de carne. Por quê?

Porque a pecuária dos EUA enfrenta terríveis dilemas produtivos, que reduziram o rebanho norte-americano ao menor tamanho dos últimos 75 anos. A oferta de carne caiu. O preço subiu. E nenhum cidadão por lá vive sem um burguer na mesa. Importar a carne brasileira é uma solução para Trump dominar a inflação. Como ele se acertará, politicamente, com os fazendeiros do Texas, não se sabe.

Qual seria a alternativa do governo brasileiro? Negociar, ceder aqui, avançar ali. Colocar as terras-raras na mesa, abrir outras possibilidades. Com o lero-lero, não conseguimos nada.

O etanol parece um caso emblemático. O Brasil impõe, desde 2017, uma elevada tarifa sobre a importação de etanol norte-americano, que aqui chega para abastecer os postos de combustíveis do Nordeste. Protecionismo puro.

Os EUA, óbvio, querem derrubar essa tarifa brasileira, exigindo reciprocidade. Assim como Trump liberou a entrada da carne bovina, era esperado que o governo Lula negociasse a barreira do etanol. Só que não.

Marcos Jank, referência sobre comércio internacional, sempre fala: “O agro brasileiro é liberal nas exportações e protecionista das importações. Mas o comércio internacional sempre foi um jogo de mão dupla, que nunca quisemos enxergar”. Tomamos assim uma lambada de 25% sobre variados setores econômicos, industriais especialmente.

Acabou a Copa do Mundo de futebol. Agora dominará a política. No ano que vem, voltaremos a falar a sério sobre o protecionismo comercial no mundo. Tomara que com maior competência.

Fonte: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-erro-brasileiro-diante-do-tarifaco-de-trump/

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