Natália Esteves Pacheco

A Crise Silenciosa do Agronegócio: Quem Cuida da Saúde Mental de Quem Produz Alimentos?

O agronegócio aprendeu a falar sobre produtividade. Aprendeu a falar sobre genética, gestão, tecnologia, sustentabilidade e rentabilidade. Mas existe um assunto que durante muito tempo ficou trancado dentro de casa, escondido atrás das porteiras e abafado pelo barulho dos tratores e das ordenhas: a saúde mental. No campo, fomos ensinados a ser fortes. A levantar […]

Saúde mental no campo: produtor rural em momento de reflexão em propriedade agrícola

O agronegócio aprendeu a falar sobre produtividade. Aprendeu a falar sobre genética, gestão, tecnologia, sustentabilidade e rentabilidade. Mas existe um assunto que durante muito tempo ficou trancado dentro de casa, escondido atrás das porteiras e abafado pelo barulho dos tratores e das ordenhas: a saúde mental.

No campo, fomos ensinados a ser fortes. A levantar depois de uma seca. A recomeçar depois de uma enchente. A seguir produzindo mesmo quando a conta não fecha. A enfrentar geadas, doenças, perdas, frustrações e dificuldades sem reclamar. Mas existe uma diferença entre ser forte e sofrer calado. E talvez tenha chegado a hora de o agronegócio olhar para uma das suas maiores fragilidades: as pessoas.

Os números começam a mostrar aquilo que muitos já percebem no dia a dia

Os números começam a mostrar aquilo que muitos produtores, técnicos, veterinários e gestores já percebem no dia a dia. A depressão, a ansiedade, o esgotamento emocional e os transtornos relacionados ao estresse estão cada vez mais presentes dentro das propriedades rurais. E isso não deveria nos surpreender.

Quem trabalha no agro convive diariamente com fatores que não controla. O clima não pede licença. O mercado não tem piedade. Os custos aumentam. As margens diminuem. As dívidas chegam. As doenças aparecem. E enquanto tudo isso acontece, os animais continuam precisando ser alimentados, as lavouras continuam exigindo manejo e as contas continuam vencendo. No agro não existe botão de pausa. A produção não espera.

Talvez você conheça alguém que não perde uma ordenha, não perde um manejo, não perde uma reunião, mas há muito tempo perdeu a vontade de sorrir. Talvez essa pessoa esteja trabalhando ao seu lado. Talvez seja um vizinho. Talvez seja alguém da sua família. Ou talvez seja você.

Existe uma cultura antiga no campo de que pedir ajuda é sinal de fraqueza

Existe uma cultura antiga no campo de que pedir ajuda é sinal de fraqueza. De que homem forte não chora. De que mulher forte aguenta tudo. De que o produtor precisa suportar qualquer peso sozinho. Mas a realidade está mostrando o contrário.

No campo, aprendemos a lidar com a morte de animais, com a perda de safras e com prejuízos financeiros. Aprendemos a recomeçar depois de eventos climáticos extremos, a conviver com incertezas e a enfrentar desafios que muitas vezes fogem completamente do nosso controle. Mas ainda temos dificuldade de falar sobre nossas próprias dores.

Quando uma pessoa adoece emocionalmente, não é apenas ela que sofre. A família sofre. Os colaboradores sofrem. A propriedade sofre. As decisões pioram. Os conflitos aumentam. A produtividade cai. E em casos extremos, vidas são perdidas.

Entre as mulheres do agro, o desafio costuma ser ainda maior

Entre as mulheres do agro, o desafio costuma ser ainda maior. Nós acumulamos funções. Somos produtoras, mães, esposas, gestoras, administradoras, líderes e, muitas vezes, o ponto de equilíbrio de toda a família. Cuidamos da propriedade. Cuidamos dos filhos. Cuidamos dos pais. Cuidamos dos colaboradores. Cuidamos dos animais. E frequentemente esquecemos de cuidar de nós mesmas.

Falar sobre saúde mental não enfraquece o agro

Felizmente, esse assunto começa a ganhar espaço. Cooperativas, associações, sindicatos, universidades e empresas do setor passaram a entender que saúde mental não é um tema secundário. É uma questão estratégica. Porque não existe sucessão familiar sem saúde emocional. Não existe gestão eficiente sem equilíbrio mental. Não existe desenvolvimento sustentável quando as pessoas que sustentam o sistema estão adoecendo.

O agronegócio brasileiro alimenta milhões de pessoas todos os dias. Mas talvez esteja na hora de fazermos uma pergunta simples e necessária: Quem está cuidando de quem produz os alimentos?

Falar sobre saúde mental não enfraquece o agro. Pelo contrário. Reconhecer nossas dores, nossas limitações e nossas dificuldades é um ato de coragem. A verdadeira força do campo nunca esteve na ausência de sofrimento. Ela sempre esteve na capacidade de seguir em frente. Mas seguir em frente não significa seguir sozinho.

E talvez essa seja uma das conversas mais importantes que o agronegócio brasileiro precisa ter nos próximos anos.

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