Enquanto o Brasil Bate Recorde de Cana, o Ceará Vê a Tradição Encolher
Antes do sol nascer, as caldeiras dos engenhos cearenses ainda são acesas do jeito antigo. Contudo, cada vez menos vezes por ano. O que antes era rotina diária em distritos como Canaã, na região de Trairi, hoje depende da pouca cana que sobra. As safras estão cada vez mais curtas.
Enquanto isso, o país inteiro se prepara para um ciclo de crescimento. Levantamento de 16 empresas do setor projeta uma safra nacional de 629,93 milhões de toneladas de cana-de-açúcar para 2026/27. O número representa alta de 3,1% em relação ao ciclo anterior. Portanto, o contraste com o Ceará não poderia ser maior.
Um recorde nacional que não chega à produção de cana no Ceará
De acordo com as estimativas, o incremento se deve principalmente ao aumento esperado na produtividade dos estados que concentram a produção. Esse ganho é impulsionado por um clima mais favorável ao desenvolvimento da lavoura ao longo de 2025. Ou seja, a cana brasileira vive um bom momento. Mas esse momento está concentrado longe do semiárido nordestino.
No Ceará, a realidade segue outro caminho. Segundo dados da Produção Agrícola Municipal, do IBGE, o estado foi o que menos produziu e colheu cana-de-açúcar entre os estados nordestinos nos últimos anos. O resultado vem caindo de forma constante ao longo de cinco décadas.
Ricardo Elesbão, chefe de pesquisa da Embrapa Territórios e Alimentos, explica que o Ceará já teve papel de destaque no cultivo da planta. Contudo, o estado vive hoje um período mais acentuado de altas temperaturas e baixo índice de chuvas. Esse fator penaliza diretamente a lavoura.
Por que a cana perdeu espaço no estado
Historicamente, apenas as regiões cortadas pela Zona da Mata nordestina prosperaram na cultura da cana. Isso valeu tanto no período colonial quanto na atualidade. Assim, estados com maior presença dessa faixa litorânea úmida conseguem sustentar produtividade mais estável. Já o Ceará, majoritariamente semiárido, sofre justamente pela escassez de chuva regular.
Esse cenário afeta diretamente quem vive da atividade em pequena escala. Nos engenhos artesanais do estado, o trabalho segue sendo feito à moda antiga. Vai do preparo da terra ao corte manual, passando pela moagem, até chegar à forma de rapadura. Contudo, essa produção depende da quantidade de cana disponível. Em anos mais secos, isso reduz diretamente a frequência do trabalho e a renda das famílias envolvidas.
O que ainda resiste no campo cearense
Apesar do cenário difícil, alguns engenhos seguem ativos. Em certos casos, encontraram no turismo rural uma forma de diversificar renda. Complexos como o de Cascavel, no litoral leste, transformaram a produção tradicional em atração para visitantes. Ali, vendem rapadura, cachaça artesanal e doces derivados da cana diretamente ao público que passa pela região.
Esse modelo mostra um caminho possível para outros produtores de pequena escala. A ideia é aliar a tradição centenária a uma nova fonte de receita, sem depender exclusivamente da venda da matéria-prima. Ainda assim, a base do problema segue a mesma. Sem chuva regular e sem investimento em irrigação voltada à cana, dificilmente a produção cearense volta a crescer no ritmo do restante do país.
O que o cenário nacional indica para o Ceará
Enquanto o Brasil projeta mais um ciclo de recordes na cana, o desafio do Ceará é outro. Não se trata de acompanhar essa curva de crescimento, mas de preservar o que resta de uma cultura secular. Para isso, especialistas apontam a necessidade de políticas específicas de adaptação climática. Essas políticas devem ser voltadas às lavouras de sequeiro, que dependem diretamente do regime de chuvas.
O futuro dos engenhos cearenses, portanto, não depende de competir em volume com os grandes polos produtores do país. Depende de encontrar formas de manter viva uma tradição que atravessa gerações, mesmo em um cenário de clima cada vez mais adverso.












