Natália Esteves Pacheco

O campo não precisa de mais dados. Precisa saber o que fazer com eles.

Nunca tivemos tanta informação disponível dentro de uma propriedade rural. Na avicultura, acompanhamos conversão alimentar, ganho de peso, mortalidade, consumo de água e ração, temperatura, umidade, uniformidade dos lotes e inúmeros outros indicadores. Na bovinocultura, pesamos animais, calculamos ganho médio diário, consumo, custo da dieta, taxa de prenhez e idade ao abate. Na suinocultura, praticamente […]

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Nunca tivemos tanta informação disponível dentro de uma propriedade rural.

Na avicultura, acompanhamos conversão alimentar, ganho de peso, mortalidade, consumo de água e ração, temperatura, umidade, uniformidade dos lotes e inúmeros outros indicadores. Na bovinocultura, pesamos animais, calculamos ganho médio diário, consumo, custo da dieta, taxa de prenhez e idade ao abate. Na suinocultura, praticamente todas as etapas do ciclo produtivo podem ser transformadas em indicadores. Na agricultura, temos produtividade por hectare, mapas de solo, índices de vegetação, imagens de satélite, estações meteorológicas, sensores e máquinas capazes de registrar dados em tempo real.

O campo nunca mediu tanto.

Mas existe uma diferença enorme entre ter dados e fazer gestão.

Planilhas cheias, relatórios extensos, gráficos coloridos e sistemas sofisticados não garantem melhores resultados. O dado só começa a gerar valor quando conseguimos transformá-lo em algumas perguntas simples:

O que aconteceu? Por que aconteceu? Quanto isso custou? E o que vamos fazer diferente a partir dessa informação?

É justamente nessa passagem do número para a decisão que talvez esteja um dos grandes desafios da profissionalização do agro.

O número sozinho não conta a história

Imagine um lote de frangos com conversão alimentar de 1,62.

É boa? É ruim?

Sozinha, a informação não responde.

Precisamos saber qual era a meta daquele lote, qual o histórico daquela granja, qual a idade e o peso de abate, quais foram as condições ambientais e, principalmente, quanto aquele eventual desvio representou economicamente.

Se a conversão ficou acima da meta, é preciso investigar.

Houve problema de ambiência? Temperatura inadequada? Falha no manejo? Alteração no consumo de água? Problema sanitário? Qualidade do pintinho? Nutrição? Equipamentos? Densidade?

A partir daí, o indicador deixa de ser apenas um resultado e passa a ser uma ferramenta de diagnóstico.

Na bovinocultura ocorre exatamente a mesma coisa.

Saber que um animal teve determinado ganho médio diário é importante. Mas a pergunta seguinte deveria ser: quanto custou produzir cada quilo desse ganho?

Um ganho de peso maior nem sempre significa maior rentabilidade se, para alcançá-lo, aumentamos excessivamente o custo da dieta ou permanecemos mais dias do que o necessário com aquele animal no sistema.

O indicador produtivo precisa conversar com o indicador econômico.

Produzir mais nem sempre significa ganhar mais

Na agricultura, essa análise também é fundamental.

É natural comemorarmos uma lavoura que produziu mais sacas ou toneladas por hectare. Produtividade é importante e continuará sendo.

Mas existe outra pergunta que precisa caminhar ao lado dela:

Quanto custou produzir cada tonelada?

Se aumentamos a produtividade em 8%, mas para isso elevamos os custos em 15%, precisamos analisar com cuidado se realmente melhoramos o resultado do negócio.

Essa lógica vale para praticamente todas as atividades do agro.

Não basta produzir mais litros de leite, mais quilos de carne, mais ovos, mais leitões, mais toneladas de grãos ou mais quilos de frango.

Precisamos produzir melhor.

E produzir melhor significa relacionar produtividade, eficiência e margem.

O dado precisa chegar a quem toma a decisão

Existe ainda outro desafio.

Muitas propriedades e empresas já possuem excelentes sistemas de coleta de informações, mas os dados permanecem concentrados em relatórios que chegam tarde demais ou não chegam de maneira útil a quem precisa tomar a decisão.

Quando um indicador mostra o problema apenas depois que o lote terminou, o animal foi abatido ou a safra foi colhida, ele serve para aprendizado.

Quando conseguimos enxergar a tendência enquanto ainda existe tempo para interferir, ele passa a servir também para gestão.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes que a tecnologia está trazendo ao campo: deixar de olhar somente para o retrovisor e começar a antecipar problemas.

É nesse ponto que sensores, automação, agricultura de precisão e inteligência artificial podem fazer enorme diferença.

Mas existe uma condição: tecnologia precisa estar conectada a processo e decisão.

Caso contrário, apenas produziremos ainda mais dados.

E agora entra a inteligência artificial

A inteligência artificial tende a ampliar de maneira extraordinária nossa capacidade de cruzar informações.

Imagine combinar histórico produtivo, consumo de água, temperatura, umidade, mortalidade, desempenho, nutrição e condições climáticas para identificar uma tendência antes que ela se transforme em perda.

Ou utilizar informações de peso, consumo, custo da dieta e preço de mercado para auxiliar na definição do momento economicamente mais interessante para terminar um lote de bovinos.

Na agricultura, modelos já conseguem combinar dados climáticos, imagens, solo e histórico das áreas para auxiliar decisões de manejo.

A tecnologia continuará avançando.

Mas existe algo que nenhuma ferramenta deveria substituir: a capacidade humana de interpretar o contexto e decidir.

Quem conhece o campo sabe que dois números iguais podem ter causas completamente diferentes.

Por isso, o futuro provavelmente não será uma disputa entre experiência e tecnologia.

Será a união das duas.

A experiência de quem conhece a atividade, associada à capacidade das novas ferramentas de organizar, cruzar e interpretar volumes gigantescos de informação.

Gestão começa quando alguém pergunta “por quê?”

Talvez esse seja o ponto mais importante.

Uma empresa ou propriedade verdadeiramente orientada por dados não é aquela que possui mais indicadores.

É aquela que desenvolveu uma cultura de questioná-los.

Por que aumentou?

Por que caiu?

Onde começou o desvio?

Quanto estamos perdendo?

Isso aconteceu antes?

Qual propriedade conseguiu resultado melhor?

O que ela fez diferente?

O que podemos corrigir ainda neste ciclo?

Quando essas perguntas entram na rotina, o dado deixa de ser burocracia e passa a fazer parte da gestão.

E isso exige também pessoas preparadas.

Podemos instalar sensores, comprar softwares, automatizar galpões, utilizar drones, balanças eletrônicas e inteligência artificial. Mas continuaremos precisando formar produtores, técnicos, gestores e trabalhadores capazes de compreender o que aquela informação está dizendo.

Talvez aí esteja um dos próximos grandes saltos de produtividade do agronegócio brasileiro.

Não apenas em produzir mais dados.

Mas em aprender a transformá-los em decisão.

Porque, no final das contas, o campo não precisa de mais uma planilha dizendo que alguma coisa deu errado.

Precisa identificar o desvio cedo, entender sua causa, calcular seu impacto e agir.

No campo, medir é importante. Comparar é melhor. Entender a causa é fundamental. Mas resultado só aparece quando informação vira ação.

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