O preço da castanha de caju está passando por uma virada rara no Ceará. Historicamente, exportar sempre pagou mais do que vender para o mercado interno. Isso está mudando agora. E quem sente essa mudança primeiro é quem tem escala para negociar.
O preço da castanha de caju no mercado interno
Segundo a Conab, o preço pago ao produtor no mercado interno subiu 35,8% em um ano. Em janeiro de 2026, chegou a R$ 5,43 por quilo no Ceará. No mesmo período, o preço de exportação caiu 22,6%, para R$ 6,46 por quilo. A distância entre os dois mercados está encolhendo. Isso muda a lógica de quem sempre vendeu de olho no dólar.
Quem está puxando essa demanda interna é a indústria plant-based (produtos feitos a partir de plantas, sem ingredientes de origem animal). Marcas que fabricam queijos vegetais, bebidas e requeijões de castanha passaram a comprar direto de produtores do Ceará e do Rio Grande do Norte. Algumas consomem milhares de toneladas por ano. Por isso, esse tipo de comprador não fecha negócio com quem vende pouco e de forma esporádica. Ele precisa de fornecedor que entregue volume constante, safra após safra.
Quem tem estrutura para negociar sai na frente
É justamente aí que o produtor de médio porte se destaca. Com estrutura para negociar contrato e cumprir prazo, ele consegue captar mais valor dessa migração de preço do que quem vende isolado. Além disso, essa vantagem se repete na hora de investir.
O Ceará colheu 101 mil toneladas em 2025, uma queda de 14,2% em relação ao ano anterior. Isso aconteceu por causa da quadra chuvosa, que atrasou e prejudicou parte da produção. Mesmo assim, o estado continua sendo o maior produtor do país, respondendo por mais de 70% da castanha brasileira.
Parte da recuperação vem da troca do cajueiro comum por variedades como o cajueiro-anão precoce: mudas que entram em produção mais rápido e rendem mais castanha por hectare. Essa troca exige investimento. Por isso, é o produtor com capital de giro para replantar quem consegue dar esse salto de produtividade primeiro.
Cooperativas abrem caminho para o pequeno produtor
Isso não significa que o pequeno produtor fique de fora dessa conta. No Brasil, cerca de 83% dos estabelecimentos que produzem castanha de caju são de pequena produção, concentrados sobretudo no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte.
Quando organizados em cooperativa, porém, esses produtores conseguem somar volume. Assim, eles negociam nas mesmas condições que um produtor médio isolado. Dessa forma, acessam os mesmos contratos com a indústria e reduzem a dependência do atravessador. Ou seja, a diferença entre estar dentro ou fora dessa nova demanda interna é menos sobre o tamanho da propriedade. É mais sobre a capacidade de se organizar para vender com escala.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, reconhece a queda nas vendas externas dos últimos anos. No entanto, ele evita tratar a virada do mercado interno como algo já consolidado. Para ele, o setor ainda precisa de mais tempo de observação, para só então confirmar se essa mudança de rota vai se manter.
O que muda com a valorização da castanha de caju
Quem sai ganhando com esse movimento é o produtor médio que já tem estrutura para negociar contrato direto. Também ganha o pequeno produtor que conseguiu se organizar em cooperativa para competir no mesmo patamar. Por outro lado, quem precisa se adaptar é quem ainda vende de forma isolada, dependente do preço de exportação e mais exposto às oscilações do câmbio.
Se essa valorização do preço da castanha de caju se mantiver, a cajucultura cearense pode caminhar para um modelo mais equilibrado: menos refém do dólar, mais sustentado pelo consumo dentro do próprio país, com espaço tanto para quem já opera em escala média quanto para quem soma força em cooperativa. O jeito de ler o cajueiro não muda. Mas o jeito de negociar o que se colhe dele, esse sim, está redefinindo quem sai na frente.












