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Feijão bate recorde no Brasil, mas o Ceará colhe outra história

O preço do feijão no Ceará segue uma lógica própria. Em 2026, o feijão carioca bateu recorde histórico no Brasil. Mas boa parte do que se planta no estado é feijão verde e feijão-caupi. Essas variedades respondem ao consumo regional, não à bolsa de commodities. Entender essa diferença explica por que uma alta histórica no […]

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O preço do feijão no Ceará segue uma lógica própria. Em 2026, o feijão carioca bateu recorde histórico no Brasil. Mas boa parte do que se planta no estado é feijão verde e feijão-caupi. Essas variedades respondem ao consumo regional, não à bolsa de commodities.

Entender essa diferença explica por que uma alta histórica no mercado nacional não chega da mesma forma ao pequeno produtor cearense. O feijão do Cariri e da Ibiapaba tem outro calendário, outro comprador e outro destino.

Por que o feijão bateu recorde no Brasil

A disparada do feijão carioca tem explicação técnica. Segundo a Conab, a safra 2025/26 deve ser uma das menores em vinte anos. A redução da área plantada e as dificuldades climáticas na colheita, especialmente no Paraná, pesaram no resultado.

Os estoques de passagem também caíram. Eles garantem, normalmente, cerca de 60 dias de consumo. No início de 2026, chegaram a apenas 15 dias. Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), afirmou à imprensa que os sinais de aperto na oferta já eram visíveis. Segundo ele, isso ficou claro desde meados de 2025.

As exportações de feijão cresceram em 2025, atingindo 860 mil toneladas, volume recorde segundo dados do Comex Stat. Mas grande parte desse volume é de variedades pouco consumidas no mercado interno, como o feijão mungo. Por isso, a alta de preço afeta principalmente o feijão carioca e o preto, os mais consumidos pelos brasileiros.

O consumo de feijão por brasileiro também caiu nas últimas décadas. Segundo a Embrapa, o consumo médio passou de 23 quilos por pessoa ao ano, entre 1961 e 1970, para 14 quilos em 2024. Esse movimento ajuda a explicar por que o produto se tornou mais sensível a qualquer variação de oferta.

O preço do feijão no Ceará depende da chuva

O feijão que sustenta a produção cearense segue outra lógica. Segundo Sérgio Linhares, técnico da Ematerce em Juazeiro do Norte, o preço do feijão verde na região responde à distribuição das chuvas. O período mais decisivo vai de janeiro a abril. Safra boa reduz o preço local. Safra fraca o sustenta.

O agricultor Pedro Gonçalves, do Sítio Jurema, no Cariri, relatou algo parecido. Para ele, a boa distribuição das chuvas foi determinante para uma grande produção de feijão verde na região. A observação confirma o que a Ematerce descreve: no Ceará, o clima decide o preço antes do mercado.

Esse vínculo entre o feijão e a identidade cearense ganhou reconhecimento formal em 2026. Em maio, o governo do Ceará sancionou lei que institui o Dia Estadual do Feijão Verde no estado.

O que muda para o pequeno produtor

Para o pequeno produtor cearense, a alta do feijão carioca chega principalmente pelo efeito indireto no bolso do consumidor. Com o feijão mais caro em todo o país, cresce o espaço para variedades regionais. O feijão verde e o caupi ganham força, ainda mais acessíveis e ligados à identidade alimentar do Nordeste.

Isso representa uma oportunidade real para cooperativas e associações do Cariri e da Ibiapaba. Elas podem posicionar o feijão verde como produto de origem, não apenas como alternativa mais barata ao carioca.

Por outro lado, quem mais precisa de atenção é o produtor que ainda depende da venda informal. Sem regularização e sem acesso a crédito rural, ele segue mais exposto às oscilações climáticas. No Ceará, essas oscilações continuam definindo boa parte do preço do feijão no Ceará.

O Brasil aprendeu, em poucos meses, que o feijão pode se comportar como ativo de mercado. No Ceará, o feijão verde já é reconhecido por lei como parte da identidade estadual. As duas realidades não competem entre si. Podem se complementar, desde que o produtor cearense tenha ferramentas para transformar tradição em valor de mercado.

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