Numa manhã em Campo Grande, no estande do jornal A Crítica dentro da Acrisul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul), o Agro Raiz Cast sentou para conversar com três nomes que, juntos, resumem décadas de transformação no agro sul-mato-grossense. Foram três gravações seguidas, três histórias diferentes e um mesmo fio que as une: a urgência de se adaptar antes que a mudança seja imposta de fora.
A seguir, o que aconteceu em cada uma dessas conversas.
Parte 1: Laucídio Coelho Neto e a memória de um estado que nasceu do boi

A primeira entrevista do dia foi com Laucídio Coelho Neto, ex-presidente da Acrisul e dono da tradicional Fazenda Engenho. Antes de qualquer pergunta sobre dados ou projeções, veio a história de família: bisavô fundador da entidade, avô que ajudou a desbravar o sul do antigo Mato Grosso, uma trajetória que começou na pecuária extensiva num tempo em que nem estrada havia para chegar à fazenda.
Laucídio contou como Mato Grosso do Sul foi somando novas atividades sem abandonar a pecuária: primeiro a soja e o milho, depois o eucalipto nas terras consideradas fracas demais para o gado, e mais recentemente o etanol de milho, que também gera ração de qualidade para o próprio rebanho. Falou ainda de sua paixão paralela, a criação de cavalos árabes, herdada dos antigos plantéis do Exército em Campo Grande.
A conversa também entrou em território mais espinhoso: o peso da máquina pública, os juros altos para quem financia safra e a defesa de que o Brasil precisa respeitar as diferenças entre suas regiões, em vez de aplicar a mesma lei do Pantanal ao semiárido nordestino. Foi nesse ponto que o paralelo com o Ceará surgiu, quando o entrevistado citou o EPROCE como exemplo de movimento que nasceu justamente para respeitar essas diferenças, com núcleos regionais separados para o sertão, o litoral e a Ibiapaba.
Parte 2: Ademar Silva e a formação de lideranças como projeto de estado

Na sequência, o microfone passou para Ademar Silva, secretário de Desenvolvimento Econômico e Agronegócio de Campo Grande, ex-presidente da Famasul e ex-vice-presidente da CNA. Diferente da conversa anterior, centrada em memória, essa entrevista teve como eixo um método: como Mato Grosso do Sul formou, de propósito, uma geração de lideranças rurais que hoje ocupa cargos de peso no estado e no país.
Ademar relatou como, ainda nos anos 1980, entidades como a Famasul e a Crisul decidiram investir em cursos de capacitação para evitar que a liderança rural ficasse concentrada nas mesmas famílias. Do grupo que passou por essa formação saíram nomes como a atual senadora Tereza Cristina e o governador Eduardo Riedel, hoje referências do agronegócio brasileiro.
Ele também dividiu sua experiência à frente da Anater (Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural), destacando a diferença entre assistencialismo e qualificação técnica real para o pequeno e médio produtor. Ademar reforçou que essa distinção pesa ainda mais em regiões de forte presença de assentamentos, um cenário que ele reconhece como comum tanto no Centro-Oeste quanto no Nordeste.
Parte 3: Fabrício Trindade e o que a reforma tributária muda no campo

A última conversa trocou a história e a liderança pela urgência prática do calendário fiscal. Fabrício Trindade, auditor fiscal da Receita Federal e um dos responsáveis pela reforma tributária na área do agro, explicou por que 2026 é um ano decisivo: é o período de testes antes da entrada em vigor efetiva do CBS e do IBS, a partir de 2027.
Segundo o auditor, uma das mudanças mais sensíveis para quem vende gado, grãos ou qualquer produto rural está na geração de crédito tributário. A partir de agora, comprar de um fornecedor que não recolhe corretamente o imposto pode significar perder o direito ao crédito correspondente, o que exige atenção redobrada na escolha de quem se compra e para quem se vende.
Fabrício também explicou a diferença prática entre o sistema atual e o novo: hoje o ICMS vem embutido no preço, enquanto o CBS e o IBS aparecerão destacados, por fora, deixando claro na nota fiscal o quanto o comprador está pagando de imposto. Ele reforçou o convite para produtores e empresários acompanharem a capacitação gratuita oferecida pelo Conselho Federal de Contabilidade, com um módulo específico sobre agronegócio.
O que essas três conversas têm em comum
Memória, liderança e planejamento tributário parecem temas distantes entre si, mas as três entrevistas gravadas em Campo Grande apontaram para a mesma direção: nenhuma delas tratou o produtor como espectador de mudanças que vêm de fora. Em todas, a saída indicada foi a mesma, se antecipar, se organizar e se qualificar antes que a transformação seja imposta.
Para o produtor cearense que acompanha o Portal AgroRaiz, essas conversas funcionam como espelho. A diversificação que começou pequena em Mato Grosso do Sul, a formação de lideranças que hoje sustenta o estado e a reforma tributária que não escolhe fronteira estadual são debates que também já batem à porta do sertão, do litoral e da chapada cearense.












