Natália Esteves Pacheco Milho

A integração avícola encontra um novo território no Nordeste

Quando olhamos para a história da avicultura brasileira, é difícil separar o crescimento da atividade de uma palavra: integração. O modelo que hoje sustenta boa parte da eficiência da cadeia de frangos e suínos no Brasil começou a ganhar força no Sul na década de 1960 e, ao longo das décadas seguintes, transformou a forma […]

integracao-avicola-nordeste-ceara

Quando olhamos para a história da avicultura brasileira, é difícil separar o crescimento da atividade de uma palavra: integração.

O modelo que hoje sustenta boa parte da eficiência da cadeia de frangos e suínos no Brasil começou a ganhar força no Sul na década de 1960 e, ao longo das décadas seguintes, transformou a forma de produzir proteína animal no país.

Na integração, cada elo assume responsabilidades específicas. A integradora fornece aves, alimentação, assistência técnica e estabelece protocolos produtivos e sanitários. O produtor integrado participa com instalações, mão de obra, manejo e execução desses protocolos. É uma relação que permite planejamento, padronização, escala e maior previsibilidade para toda a cadeia.

Os números ajudam a dimensionar a força das regiões onde esse modelo se consolidou. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil abateu aproximadamente 1,71 bilhão de frangos. Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo responderam juntos por cerca de 71% do abate nacional.

Não se constrói uma cadeia dessa dimensão apenas colocando aves dentro de galpões. Existe por trás dela uma estrutura que conecta produção de grãos, fábricas de ração, genética, sanidade, assistência técnica, produtores, logística, frigoríficos, processamento e mercado.

E é justamente olhando para essa estrutura que vejo uma grande oportunidade para o Nordeste.

O Ceará começa a construir seu próprio modelo

O sistema de integração já vem sendo desenvolvido no Ceará há alguns anos, trazido e impulsionado por profissionais e empresas que conheceram a experiência consolidada em outras regiões brasileiras e perceberam que havia espaço para adaptá-la às condições locais.

E aqui está um ponto importante: o Nordeste não precisa reproduzir exatamente a avicultura do Sul. Precisa desenvolver uma integração adequada à sua própria realidade.

O Ceará possui limitações naturais conhecidas. Disponibilidade hídrica, irregularidade das chuvas e características de solo e clima restringem a expansão de determinadas atividades agropecuárias em algumas regiões.

A avicultura integrada apresenta uma alternativa interessante porque permite concentrar elevada capacidade produtiva em áreas relativamente menores, utilizando instalações cada vez mais tecnificadas.

Climatização, automação da alimentação e do fornecimento de água, controle ambiental, biosseguridade, monitoramento de desempenho e gestão de dados transformaram o aviário moderno em uma verdadeira unidade de produção de proteína animal.

Isso também ajuda a explicar um movimento interessante que começa a ocorrer no Ceará: o interesse pela integração já não vem somente do produtor rural tradicional.

Empresários, médicos e profissionais de diferentes áreas começam a olhar para os aviários como possibilidade de investimento e diversificação patrimonial. São pessoas que, muitas vezes, estavam distantes da produção agropecuária e passam a enxergar na integração uma porta de entrada para o agronegócio.

É capital de outros setores chegando ao campo.

Maranhão e Piauí acrescentam uma peça fundamental: os grãos

Quando ampliamos esse olhar para Maranhão e Piauí, encontramos outro fator estratégico para o desenvolvimento da avicultura: a crescente disponibilidade de matérias-primas para alimentação animal.

O avanço da produção regional de milho, soja e culturas como o milheto cria condições cada vez mais favoráveis para o desenvolvimento das cadeias de proteína animal.

E isso é fundamental.

A alimentação representa uma das parcelas mais relevantes do custo da produção de frangos. Portanto, aproximar os polos produtores de grãos das fábricas de ração, dos aviários e das unidades de processamento reduz distâncias logísticas e pode aumentar a competitividade de toda a cadeia.

É nesse ponto que agricultura e pecuária começam a se complementar.

O Nordeste não precisa apenas produzir grãos e transportá-los para outras regiões. Pode transformar uma parcela crescente desses grãos em proteína animal dentro do próprio território.

Milho e soja podem abastecer fábricas de ração; a ração abastece os aviários; os aviários abastecem a indústria; e a indústria abastece o consumidor.

Cada nova etapa realizada dentro da região agrega valor, movimenta transporte, construção civil, assistência técnica, energia, equipamentos, manutenção e mão de obra.

É assim que se constrói uma cadeia.

Primeiro, precisamos produzir para o nosso próprio mercado

Quando se fala no crescimento da avicultura nordestina, naturalmente surge uma palavra: exportação.

Ela certamente poderá fazer parte desse futuro. O Brasil é uma potência mundial na produção e comercialização internacional de carne de frango, e novas regiões produtoras podem, com o amadurecimento da cadeia, participar cada vez mais desse mercado.

Mas existe uma etapa anterior que não pode ser ignorada.

Antes de pensarmos em exportar, precisamos produzir em escala suficiente para abastecer de forma competitiva e consistente o nosso próprio mercado.

O Nordeste possui uma população superior a 50 milhões de habitantes e representa um enorme mercado consumidor de proteína animal. Há, portanto, uma demanda regional que precisa estar no centro da estratégia de expansão.

Fortalecer a produção local significa reduzir a dependência de proteína produzida a milhares de quilômetros, diminuir parte do peso logístico sobre o produto e fazer com que mais etapas da geração de valor permaneçam dentro da própria região.

A sequência precisa ser construída de maneira responsável: ampliar integrados, consolidar produção, garantir oferta de grãos e ração, estruturar logística e capacidade industrial, fortalecer o abastecimento regional e ganhar escala.

Depois, com uma cadeia madura, competitiva e capaz de atender o mercado interno, a exportação passa a ser consequência e uma nova fronteira de crescimento.

Não precisamos inverter essa ordem.

Existe outro valor saindo dos aviários

Há ainda um componente econômico e ambiental importante dentro desse sistema: a cama de aviário.

Quando manejada, tratada e destinada corretamente, ela deixa de ser encarada apenas como resíduo da produção e passa a representar um insumo agronômico de valor.

A cama contém matéria orgânica e nutrientes que podem ser aproveitados na fertilização de solos, pastagens e diferentes culturas agrícolas, sempre obedecendo às recomendações agronômicas e às exigências sanitárias e ambientais.

Isso cria uma conexão extremamente interessante entre agricultura e pecuária.

O grão produzido na região participa da alimentação das aves. A produção avícola, por sua vez, gera um material rico em nutrientes que pode retornar ao solo e contribuir para novas produções agrícolas.

É economia circular acontecendo dentro do agronegócio.

Para o integrado, existe ainda uma possibilidade adicional de receita: além da remuneração proveniente da criação dos animais, a cama pode possuir valor econômico para comercialização ou utilização dentro da própria propriedade.

Em algumas regiões, inclusive, a disponibilidade desse fertilizante orgânico já começa a ser considerada na decisão de investimento em aviários, especialmente por produtores que também possuem lavouras e pastagens.

O Nordeste não precisa repetir o Sul. Precisa aprender com ele.

O Sul levou mais de seis décadas para construir uma das cadeias de proteína animal mais eficientes e competitivas do mundo.

Agora, o Nordeste começa a escrever sua própria história.

O Ceará apresenta mercado consumidor, investidores e uma integração que vem ganhando espaço. Maranhão e Piauí acrescentam território, expansão agrícola e disponibilidade crescente de matérias-primas para alimentação animal.

Individualmente, cada elemento representa uma oportunidade. Conectados, eles podem formar uma nova cadeia regional de produção de proteína.

Naturalmente, esse crescimento precisa acontecer com planejamento. Água, energia, disponibilidade e preço dos grãos, logística, biosseguridade, localização dos aviários, capacidade de abate, processamento e destinação ambientalmente adequada dos resíduos precisam caminhar junto com a expansão.

Integração não significa ausência de risco. Significa organização da cadeia, divisão de responsabilidades, tecnologia, assistência técnica e planejamento.

O Ceará ainda está distante dos volumes produzidos pelos grandes estados avícolas brasileiros. Maranhão e Piauí também têm um longo caminho pela frente.

Mas talvez seja justamente aí que esteja a oportunidade.

Primeiro produzir. Depois consolidar. Abastecer o nosso mercado. Ganhar escala e competitividade. E então avançar para novos mercados, inclusive o internacional.

O Nordeste não precisa apenas consumir proteína produzida em outras regiões, nem limitar-se a fornecer matéria-prima.

Pode produzir o grão, transformá-lo em ração, transformar a ração em proteína, abastecer seu próprio mercado e, no futuro, também exportar.

Depois de mais de seis décadas ajudando a transformar a avicultura brasileira, a integração pode estar encontrando no Nordeste uma nova fronteira para crescer.

fique por dentro

Inscreva-se para receber atualizações