Natália Esteves Pacheco

Biosseguridade: o investimento que o produtor só percebe quando deixa de fazer

Quando falamos em exportação, normalmente pensamos em frigoríficos, contêineres, navios, portos e negociações entre países. Mas a verdade é que uma exportação começa muito antes disso. Ela começa dentro da propriedade rural. Começa no controle de quem entra na fazenda, na higienização dos veículos, na origem dos animais, no treinamento dos funcionários, no uso correto […]

Estrutura de biosseguridade em propriedade rural, cerca sanitária e ponto de desinfecção, sem rostos em foco

Quando falamos em exportação, normalmente pensamos em frigoríficos, contêineres, navios, portos e negociações entre países.

Mas a verdade é que uma exportação começa muito antes disso.

Ela começa dentro da propriedade rural.

Começa no controle de quem entra na fazenda, na higienização dos veículos, na origem dos animais, no treinamento dos funcionários, no uso correto dos medicamentos, na qualidade da alimentação e no registro de tudo o que acontece durante a produção.

É nesse conjunto de cuidados que nasce uma palavra cada vez mais importante para o mercado internacional: confiança.

E confiança, no comércio de alimentos, está diretamente ligada à biosseguridade.

O Brasil é uma potência mundial na produção de proteína animal. O país responde por mais de 35% das exportações mundiais de carne de frango, à frente dos Estados Unidos e da União Europeia. Na carne bovina, também ocupa a liderança mundial e exporta milhões de toneladas por ano para mercados com exigências muito diferentes entre si.

Esses números mostram a força brasileira, mas também revelam o tamanho da responsabilidade que carregamos.

Quanto maior a nossa participação no abastecimento mundial, maior é a atenção dos compradores sobre a maneira como produzimos.

Não basta oferecer preço competitivo ou capacidade de fornecimento. Os importadores querem saber se o país consegue entregar o produto dentro dos padrões sanitários acordados e se possui condições de controlar rapidamente qualquer risco.

Cada mercado observa o Brasil de uma forma.

A China representa volume e escala. Entre janeiro e julho de 2025, foi responsável por aproximadamente 44,9% da carne bovina exportada pelo Brasil. Isso significa que quase metade do volume embarcado naquele período teve um único destino. É uma demonstração da força comercial brasileira, mas também da dependência que pode ser criada quando grande parte da produção está concentrada em poucos compradores.

Para um mercado com esse peso, regularidade de fornecimento, controle sanitário e capacidade de resposta são fundamentais. Qualquer problema que interrompa as compras provoca reflexos em toda a cadeia, desde o produtor até o frigorífico.

A União Europeia, por sua vez, representa um mercado menor em volume, mas de grande importância na definição de padrões. Para exportar produtos de origem animal ao bloco, os países e os estabelecimentos precisam estar formalmente habilitados e comprovar o atendimento a regras específicas de saúde pública e produção.

Nesse mercado, a exigência vai além da ausência de doenças.

Entram na avaliação a rastreabilidade, o uso de medicamentos, o controle de resíduos, a origem dos animais, a documentação dos processos e a capacidade de demonstrar que aquilo que está escrito realmente é cumprido no campo.

Os mercados do Oriente Médio possuem outra dinâmica. São grandes compradores de carne de frango brasileira e, além das garantias sanitárias, exigem o atendimento aos protocolos religiosos do sistema halal.

Já países como Japão costumam trabalhar com elevado grau de exigência em relação à inocuidade, à padronização e à previsibilidade do produto.

Ou seja, não existe um único mercado internacional.

Existem diferentes compradores, com diferentes exigências, analisando o mesmo produto brasileiro.

E todos eles possuem algo em comum: nenhum deseja importar risco.

Os resultados recentes mostram que o Brasil continua competitivo. Em maio de 2026, a receita mensal das exportações brasileiras de carne de frango ultrapassou, pela primeira vez, US$ 1 bilhão. Em junho, o país embarcou 482,8 mil toneladas, volume 40,6% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.

Na carne bovina, entre janeiro e abril de 2026, as exportações brasileiras alcançaram 1,091 milhão de toneladas, crescimento de 14,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita chegou a US$ 6,047 bilhões, uma alta de 32,8%.

São números expressivos.

Mas não podemos olhar apenas para aquilo que estamos vendendo. Precisamos olhar para o que sustenta essas vendas.

O mercado internacional acompanha a condição sanitária dos países fornecedores. Quando surge um foco de doença, as consequências comerciais podem ser imediatas: suspensão de compras, restrições a estados ou regiões, revisão de certificados e aumento das exigências.

A influenza aviária é um exemplo claro. O próprio Ministério da Agricultura reconhece que a doença possui graves consequências para o comércio internacional de produtos avícolas.

Isso mostra que biosseguridade não é apenas uma responsabilidade individual.

Uma falha dentro de uma propriedade pode comprometer um lote. Dependendo da doença e da extensão do problema, pode atingir uma região, um estado, uma cadeia produtiva e até a imagem do país.

É aqui que o produtor precisa entender o tamanho do seu papel.

Controlar visitantes, higienizar veículos, impedir o contato com possíveis fontes de contaminação, comunicar rapidamente sinais clínicos, respeitar períodos de carência e manter registros não são apenas procedimentos para satisfazer uma auditoria.

São práticas que ajudam a manter mercados abertos.

O produtor pode pensar que está distante da exportação porque vende seus animais para uma indústria ou porque sua produção permanece no mercado interno. Mas todas as cadeias estão conectadas.

Quando o Brasil perde um comprador internacional, parte do produto que seria exportado permanece no país, aumenta a oferta interna, pressiona preços e afeta também quem nunca vendeu diretamente para o exterior.

A biosseguridade, portanto, não protege somente o animal.

Ela protege o preço.

Protege os contratos.

Protege os mercados conquistados.

Protege a credibilidade construída durante décadas.

O Brasil é visto pelo mundo como um fornecedor com grande capacidade produtiva, preços competitivos e condições de abastecer diferentes mercados. Mas a confiança internacional não é definitiva.

Ela precisa ser confirmada em cada auditoria, em cada certificado, em cada lote e em cada propriedade.

Talvez esse seja o ponto que ainda precisamos compreender melhor.

Quando tudo está funcionando, a biosseguridade parece apenas mais um custo: uma tela, uma cerca, um desinfetante, um treinamento, um exame, uma quarentena ou algumas horas dedicadas ao preenchimento de registros.

Mas, quando ela falha, o prejuízo não fica restrito à porteira.

Ele chega ao frigorífico, atravessa o porto, alcança os compradores e pode comprometer a reputação de todo um país.

Por isso, a pergunta não deveria ser quanto custa implantar a biosseguridade.

A pergunta correta é:

Quanto custa ao Brasil perder a confiança de quem compra os nossos produtos?

Porque produzimos carne, leite e ovos.

Mas, no mercado internacional, aquilo que realmente sustenta cada negociação é a segurança de que continuaremos entregando alimentos de qualidade, com responsabilidade, sanidade e transparência.

E essa confiança não começa no porto.

Ela começa dentro de cada propriedade rural.

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