Natália Esteves Pacheco

As águas voltaram. E a dor também.

Mais uma vez, o Rio Grande do Sul amanheceu olhando para o céu com medo. As águas voltaram. E, junto com elas, voltaram a angústia, as lembranças e a sensação de que muitas das feridas abertas em 2024 ainda não tiveram tempo de cicatrizar. Desta vez, acompanho tudo de longe. Não estou na minha terra, […]

Área rural alagada no Rio Grande do Sul, sob céu nublado, ao entardecer

Mais uma vez, o Rio Grande do Sul amanheceu olhando para o céu com medo. As águas voltaram. E, junto com elas, voltaram a angústia, as lembranças e a sensação de que muitas das feridas abertas em 2024 ainda não tiveram tempo de cicatrizar.

Desta vez, acompanho tudo de longe. Não estou na minha terra, não estou ao lado da minha gente. Mas distância nenhuma diminui a dor de ver o estado onde nasci sofrer outra vez. Porque a gente pode morar longe do Rio Grande, mas o Rio Grande nunca deixa de morar dentro da gente.

É impossível assistir às imagens sem sentir um aperto no peito. Famílias deixando suas casas novamente. Produtores vendo o trabalho de uma vida desaparecer em poucas horas. Lavouras submersas, animais perdidos, máquinas destruídas, estradas interrompidas, galpões levados pela força da água.

Quem vive no campo sabe que não existe riqueza acumulada em uma safra. Existe tempo. Existe dedicação. Existe uma vida inteira de trabalho. E quando uma enchente leva tudo, ela não leva apenas patrimônio. Ela leva sonhos, segurança e, muitas vezes, a esperança.

O que mais machuca é perceber que parte dessa dor poderia ter sido reduzida com planejamento, prevenção e investimentos permanentes. Tragédias naturais nem sempre podem ser evitadas. Mas seus impactos podem e devem ser minimizados quando existe gestão, manutenção da infraestrutura, obras de proteção, planos de contingência e políticas públicas capazes de fortalecer quem produz e quem vive nas áreas mais vulneráveis.

Também não podemos esquecer das consequências silenciosas dessas tragédias. A saúde mental de quem perdeu tudo continua sendo uma das maiores urgências do campo. Muitos produtores carregam dívidas, insegurança e um peso emocional que nem sempre aparece nas imagens da televisão. Reconstruir estradas é essencial. Reconstruir pessoas é igualmente urgente.

Mas se existe algo que a história do Rio Grande do Sul ensina, é que o povo gaúcho conhece o significado da palavra reconstrução. No nosso hino, cantamos que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. E talvez seja justamente a virtude da coragem que tenha mantido o nosso povo de pé ao longo de tantas gerações.

A coragem de levantar depois da queda. De recomeçar quando tudo parece perdido. De estender a mão ao vizinho antes mesmo de cuidar da própria casa.

Foi assim em 2024. Enquanto a água subia, vimos voluntários atravessando cidades para salvar desconhecidos, produtores resgatando animais, comunidades inteiras construindo pontes, distribuindo alimentos e abrindo suas portas para quem precisava. O Brasil inteiro vestiu as cores do Rio Grande do Sul.

Hoje, infelizmente, essa solidariedade precisa florescer novamente. Que o país volte a olhar para o Sul não apenas durante a tragédia, mas também durante a reconstrução. Que produtores não sejam lembrados somente quando perdem suas lavouras, mas quando precisam de crédito, segurança, infraestrutura e condições para continuar produzindo alimento para milhões de brasileiros.

O Rio Grande do Sul não pede pena. Pede respeito. Pede planejamento. Pede compromisso. E pede que esta tragédia não seja apenas mais uma notícia que desaparecerá quando as águas baixarem.

Porque elas vão baixar. Mas a reconstrução levará anos. E, mais uma vez, o povo gaúcho fará aquilo que sempre fez: levantará de cabeça erguida, trabalhará com as próprias mãos e seguirá em frente. Mas ninguém deveria precisar reconstruir a própria vida sozinho duas vezes.


“A força do povo gaúcho nunca esteve em não cair. Sempre esteve na coragem de levantar. Mas coragem não pode continuar substituindo planejamento. Solidariedade salva vidas durante a tragédia; gestão responsável salva vidas antes que ela aconteça.”

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