No painel do evento Cresce Ceará, em Fortaleza, o economista Allisson Martins apresentou uma série de números que fez produtores e empresários presentes se entreolharem. Afinal, não era sobre indústria, nem sobre serviços. Era sobre o campo, historicamente associado à seca, ao risco climático e à instabilidade de renda.
Segundo o economista, o crescimento médio do setor superou 6% ao ano entre 2013 e 2023, ritmo acima do registrado por comércio e indústria no mesmo período. Enquanto isso, o agronegócio cearense seguia batendo recordes de exportação, mesmo em uma região marcada pela escassez hídrica.
O que explica um crescimento acima da média nacional
Diante disso, a pergunta que fica é simples: como um estado do semiárido supera setores tradicionalmente mais estáveis da economia? Na verdade, a resposta não está em um único fator, mas em uma combinação estratégica.
Tecnologia de irrigação, infraestrutura logística, acesso a crédito e, além disso, uma aposta consistente na fruticultura de exportação formam a base dessa transformação. Como resultado, o agronegócio cearense movimentou cerca de R$ 2,51 bilhões em exportações entre janeiro e novembro de 2025.
A castanha de caju, símbolo histórico da produção cearense, também surpreendeu. Nesse período, o produto respondeu por R$ 371 milhões em exportações, com crescimento de 88,84%. Ou seja, é um número que desafia diretamente o estereótipo do sertão improdutivo.
O melão como símbolo da mudança
Se existe uma fruta que representa essa virada, é o melão. Atualmente, em 2026, as exportações cearenses de melão já somam US$ 90,94 milhões em apenas cinco meses, valor que supera todo o montante exportado durante o ano de 2025.
Por isso, o Ceará ocupa hoje a posição de segundo maior exportador nacional da fruta. Além disso, a região de Morada Nova concentra boa parte dessa expansão, com produtores ampliando as áreas de plantio a cada novo ciclo de irrigação.
Para Silvio Carlos Ribeiro, secretário em exercício da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará, o resultado tem explicação direta. Segundo ele, “os números de 2026 são excepcionais. Somos o segundo maior exportador do Brasil e o apoio do Governo, aliado à tecnologia de irrigação, é o que garante que o Ceará continue batendo recordes neste segmento.”
O que muda para o produtor de médio e pequeno porte
Portanto, esses números não interessam apenas a grandes exportadoras. Cooperativas e pequenas propriedades da região do Baixo Jaguaribe e da Chapada do Apodi, por exemplo, vêm se beneficiando da mesma estrutura de irrigação que sustenta o crescimento do melão e da castanha.
Assim, isso significa acesso a mercados que antes pareciam distantes. Também significa que o pequeno produtor cearense passa a competir, ainda que em escala menor, dentro de uma cadeia que só cresce.
No entanto, o desafio segue sendo a distribuição desse crescimento. Nem toda pequena produção, afinal, tem a mesma capacidade de irrigação, crédito ou logística das grandes áreas exportadoras. É justamente aí que entra o papel das cooperativas e da assistência técnica regional.
O que vem pela frente
Se o ritmo dos últimos dez anos se mantiver, o Ceará tende, enfim, a consolidar de vez sua posição entre os grandes polos agrícolas do semiárido brasileiro. Ainda assim, a pergunta que fica para o próximo ciclo é outra: quantos pequenos produtores conseguirão embarcar nessa curva de crescimento?
Em suma, o sertão cearense já provou que pode ser potência. Agora, o desafio é garantir que essa potência chegue também a quem planta em menor escala.












