Nos últimos meses tenho acompanhado um movimento que me enche de esperança.
Grandes empresas estão chegando ao Nordeste. Frigoríficos ampliam suas operações. Novos investidores olham para a região com interesse. A genética evolui. A tecnologia avança. O crédito começa a aparecer. Cada vez mais pessoas entendem que é possível produzir carne, leite, ovinos, suínos e aves com eficiência mesmo em um ambiente desafiador como o nosso.
O Nordeste deixou de ser apenas uma promessa.
Hoje ele é uma oportunidade.
Mas existe um detalhe que pode definir o sucesso ou o fracasso dessa transformação.
A sanidade dos rebanhos.
Não existe genética capaz de compensar um rebanho doente.
Não existe nutrição que resolva um manejo sanitário deficiente.
Não existe frigorífico moderno que consiga produzir qualidade se a matéria-prima chega comprometida.
O básico continua sendo o mais importante.
E talvez justamente por parecer tão básico, ele ainda seja negligenciado.
Programas de vacinação bem executados.
Controle de parasitas.
Diagnóstico precoce das doenças.
Controle reprodutivo.
Biosseguridade.
Registros zootécnicos.
Treinamento das equipes.
Assistência veterinária permanente.
Esses pontos raramente aparecem nas fotos bonitas das redes sociais. Não rendem vídeos chamativos. Não são vistos como inovação.
Mas são eles que sustentam toda a produção.
Como médica veterinária, percebo que grande parte desse desafio não é técnico.
É cultural.
Durante muitos anos aprendemos a tratar o problema quando ele aparecia.
Precisamos aprender a evitar que ele aconteça.
Isso exige mudança de mentalidade.
Exige investimento.
E, principalmente, exige entender que sanidade não é despesa.
Sanidade é produtividade.
Cada aborto evitado.
Cada animal que deixa de morrer.
Cada quilo ganho a mais.
Cada litro de leite preservado.
Cada lote que chega saudável ao frigorífico.
Tudo isso retorna para dentro da propriedade.
Muito mais do que o valor investido na prevenção.
Mas essa transformação não pode ficar apenas nas mãos do produtor.
Ela precisa ser construída por toda a cadeia.
Os frigoríficos precisam incentivar e valorizar fornecedores comprometidos com boas práticas sanitárias.
A indústria deve estimular programas de qualidade.
O Estado precisa fortalecer a defesa agropecuária, ampliar a educação sanitária e garantir fiscalização técnica eficiente.
As universidades precisam formar profissionais preparados para a realidade regional.
Os médicos veterinários precisam ocupar seu papel como agentes de transformação, levando conhecimento ao campo e construindo soluções junto aos produtores.
E os produtores precisam compreender que investir em sanidade é investir no próprio patrimônio.
Não existe agro forte sem rebanhos saudáveis.
O Nordeste reúne clima, pessoas resilientes, empreendedorismo e um mercado em plena expansão.
Tem tudo para se tornar uma das regiões mais competitivas do país na produção de proteína animal.
Mas esse futuro não será construído apenas com novas fazendas, novas indústrias ou novas tecnologias.
Ele será construído dentro das propriedades, no manejo diário, na prevenção das doenças, na disciplina dos protocolos e no compromisso de cada elo da cadeia em produzir melhor.
O Nordeste não precisa esperar que alguém descubra seu potencial. Ele já existe.
O que precisamos decidir é se queremos ser lembrados como uma região que produz muito ou como uma região que produz com qualidade, segurança sanitária e competitividade.
Porque o futuro do agro não começa no frigorífico.
Ele começa na saúde de cada animal, dentro da porteira.












