Fortaleza não planta trigo. Ainda assim, se tornou um dos maiores polos de processamento do grão no Brasil. Isso acontece por causa de um porto e de três moinhos que, juntos, transformam trigo estrangeiro em farinha para todo o Nordeste. Afinal, poucas capitais brasileiras concentram tanta estrutura industrial em torno de um único insumo agrícola que nem sequer é cultivado na região.
Importação de trigo em Fortaleza bate recorde
Nos últimos cinco anos, o Porto do Mucuripe registrou seu maior volume de importação de trigo. O resultado chamou atenção porque superou até o Porto de Santos, o maior porto da América Latina, na movimentação desse grão específico. Ou seja, quando o assunto é trigo, é Fortaleza quem lidera, não o gigante paulista.
Segundo dados da Antaq, a maior parte do trigo que chega à capital cearense vem de três países. A Argentina responde por 41,4% do volume. A Rússia vem em seguida, com 29,3%. O Uruguai completa o pódio, com 20,3%. Juntos, esses três países respondem por mais de 90% de tudo que desembarca no porto. Isso mostra como Fortaleza depende de uma rede de fornecedores bem concentrada, com pouca diversificação de origem.
Os moinhos que transformam Fortaleza em polo do trigo
Esse volume todo não chega por acaso. Fortaleza abriga três dos principais moinhos do Brasil: o M. Dias Branco, o Moinho Dona Benta, do Grupo J. Macêdo, e o Grande Moinho Cearense. Os três estão instalados no bairro Cais do Porto desde a primeira metade do século XX. É ali que o trigo importado vira farinha, farelo e matéria-prima para massas e biscoitos, produtos que depois abastecem supermercados de todo o Nordeste.
Para dar conta dessa operação, os três moinhos criaram, ainda na década de 1990, uma empresa conjunta chamada Terminal de Grãos de Fortaleza, a Tergran. Ela cuida de toda a logística de recebimento e distribuição do grão no porto. Em 2021, a Tergran também assumiu o arrendamento do Terminal de Granel Sólido Vegetal, por 25 anos. Nesse período, os moinhos devem investir R$ 50 milhões nos terminais de trigo da capital cearense.
Portanto, o que existe em Fortaleza não é uma lavoura. É uma cadeia industrial inteira, construída em torno de um grão que o próprio Ceará não produz. Além da farinha, o processo gera farelo de trigo, subproduto usado como ingrediente na ração animal, o que aproxima essa cadeia de outra parte da agropecuária cearense: quem cria gado e aves também sente esse mercado de perto.
O que esse recorde significa para o Ceará
Esse protagonismo tem um lado positivo e um ponto de atenção. Por um lado, a concentração de moagem em Fortaleza gera renda, empregos qualificados e investimento constante em infraestrutura portuária. Consequentemente, o Ceará se firma como referência logística para um insumo essencial da cesta básica brasileira: o pão.
Por outro lado, essa força inteira depende de decisões tomadas fora do Brasil. O trigo vem majoritariamente da Argentina, da Rússia e do Uruguai. Por isso, qualquer instabilidade nesses países, seja clima ruim na safra, conflito ou variação cambial, pode afetar diretamente o preço da farinha aqui. Ou seja, o polo de Fortaleza é forte, mas também vulnerável a fatores que ninguém no Ceará controla.
De todo modo, o recorde recente mostra que essa engrenagem segue crescendo. O debate sobre produzir trigo dentro do próprio estado ainda é incipiente, restrito a experiências pontuais no interior. Por enquanto, é o processamento do grão importado que garante a Fortaleza um lugar de destaque num mercado que, à primeira vista, parece distante da realidade cearense. Mas que, na prática, movimenta porto, indústria e emprego todos os dias.












