Vania Moda Cirino passou décadas observando o feijão. Não como quem olha uma commodity, mas como quem conhece cada casca, cada cor, cada ritmo de amadurecimento depois da colheita. Engenheira agrônoma e melhorista do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), ela entende que uma cultivar de feijão carioca melhorada não é apenas um dado técnico. Na prática, representa a diferença entre um agricultor que vende o saco a bom preço e outro que assiste o produto escurecer no armazém antes de chegar ao comprador.
Em março de 2026, o resultado de anos do programa de melhoramento genético chegou ao mercado com nome e número: IPR Quiriquiri, a 43ª cultivar de feijão carioca desenvolvida pelo IDR-Paraná. Com escurecimento lento do tegumento — a casca — essa característica parece pequena para quem nunca precisou vender um saco com prazo curto, mas muda completamente a conta de quem planta.
O que é escurecimento lento do tegumento — e por que isso importa para o agricultor
O feijão carioca é o tipo mais consumido no Brasil. É o grão do dia a dia, da mesa de quase todas as famílias brasileiras, do prato que dispensa apresentação. No entanto, quem planta feijão carioca conhece bem um problema crônico: a casca escurece rápido depois da colheita. Feijão escuro perde valor de forma imediata. O mercado quer grão claro, com coloração creme e estrias marrons bem definidas. Quando o tegumento escurece — seja no armazém, na transportadora ou na gôndola do supermercado — o desconto na hora da venda compromete a margem do produtor.
A tecnologia de escurecimento lento resolve exatamente esse gargalo. Com a cultivar IPR Quiriquiri, a casca do feijão carioca demora mais tempo para oxidar e escurecer após a colheita e durante o armazenamento. Para o produtor, isso significa mais tempo para comercializar sem perder poder de negociação. Para a indústria e o varejo, significa menor perda de prateleira. Além disso, o consumidor encontra um produto com aparência mais fresca mesmo semanas depois da embalagem.
Em outras palavras: não se trata de uma mudança estética. Trata-se de uma mudança econômica com impacto direto na renda de quem planta.
O Paraná como referência nacional em genética do feijão
O lançamento da cultivar de feijão carioca IPR Quiriquiri não é um evento isolado. Pelo contrário, é parte de uma trajetória que consolidou o Paraná como principal referência nacional em melhoramento genético de feijão. Os números sustentam essa afirmação com clareza.
Segundo dados do Controle de Produção de Sementes e Mudas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Sigef/Mapa), nas safras 2024/25 e 2025/26 foram implantados no Brasil 17.822 hectares de campos de produção de sementes de feijão carioca e outros 14.337 hectares de campos de feijão preto. As cultivares desenvolvidas pelo IDR-Paraná respondem por 38,8% desse total. Isso equivale a dizer: quase quatro em cada dez hectares de produção de sementes de feijão no Brasil utilizam material genético criado no Paraná.
No segmento específico do feijão preto, a liderança é ainda mais expressiva. O IDR-Paraná responde por 71,2% de toda a área multiplicada no grupo comercial preto no país. Além disso, a cultivar IPR Urutau, lançada em ciclos anteriores, foi a mais multiplicada do Brasil na última safra, correspondendo a 68,7% de todas as multiplicações de feijão preto registradas.
“O IDR-Paraná tem essa expertise de desenvolver cultivares que se ajustem às condições da nossa gente, dos nossos agricultores, e hoje não é só uma referência estadual, é uma referência nacional”, afirmou Natalino Avance de Souza, diretor-presidente do IDR-Paraná.
Para José dos Santos Neto, coordenador estadual do programa Grãos-Feijão e Cereais de Inverno do Instituto, o desempenho excepcional da IPR Urutau confirma décadas de investimento em genética com propósito: “produtividade, sanidade e adaptação às diferentes regiões produtoras”.
O que muda para o agricultor familiar
A pesquisa pública em melhoramento genético pode parecer distante da realidade de quem cultiva feijão em pequenas propriedades. Porém, os efeitos chegam à porteira de formas muito concretas.
Quando uma cultivar melhorada reduz o custo de produção por hectare — pela maior resistência a doenças, pela melhor adaptação ao clima regional e pela produtividade mais consistente — quem mais se beneficia é o pequeno produtor. O agricultor de grande escala absorve ineficiências com volume. Já o pequeno depende da margem em cada saco colhido.
Vania Moda Cirino é direta ao explicar esse impacto: “A utilização de variedades melhoradas constitui uma das principais tecnologias para redução do custo de produção, agregação de valor ao produto, proporcionando a elevação da renda do agricultor, estimulando a sucessão familiar e a fixação do pequeno produtor no campo.”
A expressão “fixação no campo” merece atenção. O êxodo rural não é um fenômeno abstrato. Trata-se, em grande parte, do resultado de uma equação que não fecha: o esforço de produzir não compensa o retorno de vender. Portanto, quando a pesquisa pública entrega ao agricultor uma semente que produz mais, resiste melhor e mantém qualidade por mais tempo após a colheita, ela está, na prática, contribuindo para segurar uma família na terra.
O feijão carioca no Nordeste: um olhar necessário
O feijão carioca não é o tipo mais cultivado no Nordeste, onde o feijão-caupi (feijão de corda) tem presença histórica e cultural muito maior. Ainda assim, o lançamento da cultivar de feijão carioca IPR Quiriquiri abre uma discussão relevante para a região: em que medida a pesquisa genética aplicada ao feijão carioca pode, ao longo do tempo, ampliar o leque de opções para produtores nordestinos que já diversificam suas culturas?
A BRS ELO FC424, por exemplo, cultivar recém-lançada pela Embrapa com tecnologia semelhante de escurecimento lento, foi desenvolvida inicialmente para a Região Sul, mas tem potencial de expansão para o Centro-Oeste e o Nordeste. O mesmo princípio se aplica à trajetória das cultivares do IDR-Paraná, que historicamente desenvolveu materiais utilizados em múltiplas regiões produtoras.
Desse modo, para o produtor familiar nordestino que cultiva feijão carioca para o mercado regional, acompanhar o movimento de lançamento de cultivares é acompanhar a evolução do que estará disponível para semear na próxima safra — com mais produtividade, mais resistência e mais tempo para negociar o preço com vantagem.
Pesquisa pública como patrimônio do produtor
Existe um ponto que raramente aparece nas discussões sobre o mercado do feijão, mas que atravessa toda essa história: o papel insubstituível da pesquisa pública agropecuária.
O IDR-Paraná é uma instituição pública estadual. A Embrapa é federal. Por décadas, ambas receberam investimento com recursos do Estado — leia-se, do contribuinte brasileiro, incluindo o próprio agricultor — dedicados a desenvolver sementes que chegam acessíveis ao produtor por meio do sistema de licenciamento de cultivares. Sem essa infraestrutura pública, a inovação genética no campo brasileiro seria monopólio de grandes empresas do setor privado, com sementes protegidas e royalties que raramente chegariam ao pequeno produtor de forma viável.
Nesse sentido, a IPR Quiriquiri, assim como as outras 42 cultivares desenvolvidas pelo IDR-Paraná, é fruto de ciência colocada a serviço de quem produz. Esse é um patrimônio que merece reconhecimento — e defesa.
O que vem por aí
Com o lançamento da IPR Quiriquiri, o IDR-Paraná chega a 43 cultivares de feijão desenvolvidas ao longo de sua história. Atualmente, nove delas estão em processo de multiplicação por parceiros produtores de sementes espalhados pelo Brasil.
Para o produtor que cultiva feijão carioca, a chegada de uma cultivar com escurecimento lento ao portfólio do mercado de sementes representa uma oportunidade concreta: ampliar a janela de comercialização e reduzir perdas por desvalorização do produto. Por isso, antes de tomar a decisão de compra de semente para a próxima safra, vale consultar os parceiros multiplicadores credenciados pelo IDR-Paraná e verificar a disponibilidade da IPR Quiriquiri na sua região.
A semente certa não resolve todos os problemas de quem planta feijão. Mas é um começo que respeita o trabalho de quem acorda antes do sol para fazer o campo produzir.











