Natália Esteves Pacheco

O novo mapa mundial da carne e o lugar do Brasil nele

Durante muito tempo, falar em competitividade na produção de carne significava falar de rebanho, produtividade, custo da alimentação, disponibilidade de terra, genética e eficiência industrial. Esses fatores continuam determinantes. Mas já não explicam, sozinhos, quem ganha e quem perde espaço no mercado internacional. O comércio mundial de proteína animal entrou em uma fase em que […]

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Durante muito tempo, falar em competitividade na produção de carne significava falar de rebanho, produtividade, custo da alimentação, disponibilidade de terra, genética e eficiência industrial. Esses fatores continuam determinantes. Mas já não explicam, sozinhos, quem ganha e quem perde espaço no mercado internacional.

O comércio mundial de proteína animal entrou em uma fase em que produzir muito é apenas a primeira condição. A segunda — e cada vez mais decisiva — é conseguir acessar mercados. E talvez nunca tenha sido tão interessante observar esse tabuleiro quanto agora.

Brasil, Estados Unidos, China, Austrália, Argentina e União Europeia ocupam posições diferentes em um mercado que vem sendo reorganizado por ciclos pecuários, segurança alimentar, tarifas, sanidade, exigências regulatórias, logística e geopolítica. Ao mesmo tempo, bovinos, aves e suínos disputam espaço dentro de uma demanda mundial que também está mudando. No centro desse movimento está o Brasil.

Uma liderança que precisa ser compreendida

O Brasil construiu uma posição difícil de reproduzir. Temos escala, disponibilidade de grãos, diferentes sistemas de produção, capacidade industrial, tecnologia, competitividade e uma característica especialmente estratégica: somos relevantes internacionalmente em mais de uma proteína animal.

Na carne bovina, os números de 2026 demonstram essa força. Entre janeiro e julho, o país exportou 1,969 milhão de toneladas, crescimento de 9,9% em relação ao mesmo período de 2025. A receita alcançou US$ 11,43 bilhões, avanço de 28,3%.

Mas existe um dado que ajuda a compreender tanto a força quanto a vulnerabilidade dessa posição. Em 2025, a China absorveu aproximadamente 48% do volume de carne bovina exportado pelo Brasil. Para 2026, entretanto, o governo chinês estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas para o produto brasileiro, sujeita à tarifa de 12%. Acima desse volume, incide uma sobretaxa de 55%, elevando a tarifa total para 67%.

A consequência já apareceu nos embarques. Com o avanço do preenchimento da cota durante o primeiro semestre, as exportações brasileiras para a China desaceleraram em julho, enquanto outros destinos ganharam importância.

Não significa que a China deixou de ser essencial. Muito pelo contrário. Significa que uma potência exportadora também precisa administrar o risco de depender excessivamente de um grande comprador. Essa talvez seja uma das principais mudanças na leitura do mercado mundial de carnes: eficiência produtiva e segurança comercial não são necessariamente a mesma coisa.

Os grandes players estão mudando de posição

Os Estados Unidos continuam sendo uma das maiores forças mundiais da carne bovina, tanto pela dimensão da produção quanto pelo tamanho de seu mercado consumidor. A Austrália, por sua vez, combina forte vocação exportadora com acesso consolidado a importantes mercados asiáticos e de alto valor. Argentina e Uruguai operam em escala menor que o Brasil, mas mantêm reputação internacional e presença relevante em determinados mercados e segmentos de maior valor agregado.

E existe a China. Durante anos, nos acostumamos a observá-la principalmente como o grande comprador mundial. Essa definição está começando a ficar incompleta.

No bovino, o mercado chinês continuará tendo enorme importância para os exportadores internacionais. Na avicultura, entretanto, ocorre outro movimento: a China tornou-se exportadora líquida de carne de frango em 2025 e vem ampliando rapidamente sua produção. Segundo análise do Rabobank divulgada neste 4 de setembro, o país poderá, ao longo da próxima década, tornar-se concorrente do Brasil em mercados como Oriente Médio, Ásia e África.

Em 2025, os chineses exportaram pouco mais de 1 milhão de toneladas de carne de frango, diante de aproximadamente 5,3 milhões de toneladas embarcadas pelo Brasil. Ainda existe uma distância considerável. Mas o movimento merece atenção. Nosso grande comprador em uma cadeia pode, simultaneamente, transformar-se em concorrente em outra.

O mundo não está comprando apenas carne

Talvez esse seja o ponto mais importante dessa discussão. O produto negociado internacionalmente já não pode ser entendido apenas como carne. Cada vez mais, o que atravessa uma fronteira é carne acompanhada de protocolo. Sanidade, rastreabilidade, uso de medicamentos veterinários, certificações, origem, bem-estar animal, requisitos ambientais e regras comerciais passaram a interferir diretamente na capacidade de acessar determinados mercados.

O episódio mais recente está acontecendo neste momento. Desde 3 de setembro, a União Europeia suspendeu a entrada de diversos produtos brasileiros de origem animal, entre eles carnes bovina e de aves, diante da avaliação europeia de que o Brasil ainda não apresentou garantias suficientes de cumprimento das regras do bloco relativas ao uso de antimicrobianos na produção animal. A medida pode atingir um fluxo comercial estimado em aproximadamente US$ 1,8 bilhão por ano.

É importante fazer uma distinção: a questão não significa, por si só, que a carne brasileira esteja contaminada. A controvérsia envolve principalmente a capacidade de demonstrar, documentar e certificar o cumprimento das exigências regulatórias europeias ao longo das cadeias produtivas.

E é justamente aí que o episódio se torna emblemático. Um tema aparentemente restrito à medicina veterinária e à produção animal passa a interferir em bilhões de dólares de comércio exterior e chega à esfera diplomática. O governo brasileiro já sinalizou a possibilidade de medidas de reciprocidade caso as negociações não produzam uma solução satisfatória. Produção, sanidade e política comercial passaram a ocupar a mesma mesa.

O valor de um mercado não está apenas no volume

A situação europeia também ajuda a desfazer outra interpretação comum. A União Europeia não está entre os maiores destinos da carne bovina brasileira quando analisamos apenas toneladas. Entre janeiro e julho deste ano, recebeu 63,7 mil toneladas, cerca de 3,2% do volume exportado pelo Brasil. Em valor, porém, foram US$ 562,2 milhões, com preço médio próximo de US$ 8,8 mil por tonelada.

Isso revela algo importante: diversificar mercados não significa apenas encontrar compradores para mais toneladas. Significa encontrar destinos diferentes para produtos diferentes e capturar maior valor. China, Europa, Estados Unidos, Oriente Médio e outros mercados não demandam necessariamente o mesmo produto, nas mesmas condições ou pelo mesmo preço. Essa diversidade é estratégica.

Quando o comércio muda, as rotas também mudam

É nesse contexto que um movimento recente no Nordeste merece atenção. Em junho, o Porto de Natal foi habilitado para operações de exportação de animais vivos, tornando-se o primeiro terminal do Nordeste apto a realizar esse tipo de embarque. A primeira operação anunciada prevê aproximadamente 3,3 mil bovinos destinados ao Líbano.

Isoladamente, esse volume é pequeno diante do comércio internacional brasileiro. Seu significado, entretanto, pode ser maior do que o número sugere. A habilitação cria uma nova possibilidade logística para uma região geograficamente próxima dos mercados do Oriente Médio e do Norte da África, destinos importantes para animais vivos e proteínas produzidas segundo requisitos específicos, como os protocolos Halal.

Isso não significa afirmar que Natal mudará o eixo da pecuária exportadora brasileira. Seria prematuro. Mas permite fazer uma pergunta muito mais interessante: se as rotas comerciais estão mudando, o mapa da produção brasileira também pode mudar?

Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão possuem realidades produtivas distintas, limitações conhecidas e cadeias pecuárias ainda muito diferentes daquelas consolidadas no Centro-Oeste e no Sul do país. Ao mesmo tempo, proximidade geográfica, infraestrutura portuária, disponibilidade de áreas produtivas e conexão com novos mercados podem modificar cálculos econômicos. No comércio internacional, distância também é custo. E logística também é competitividade.

Não existe apenas uma disputa entre países

Há ainda outra transformação importante. Quando discutimos o futuro do mercado mundial, não estamos observando apenas uma competição entre Brasil, Estados Unidos e Austrália. Existe também uma competição entre proteínas. Bovinos, aves e suínos respondem de maneiras muito diferentes a preço, renda, disponibilidade de alimento e mudanças no comportamento do consumidor.

As projeções da OECD-FAO para 2026–2035 indicam continuidade do crescimento da produção e do consumo mundial de carnes, com papel especialmente relevante da avicultura nessa expansão. O frango reúne características econômicas particularmente competitivas: ciclo curto, elevada eficiência alimentar, capacidade de expansão relativamente rápida e preço geralmente mais acessível ao consumidor. O bovino ocupa outra lógica econômica, com ciclo produtivo mais longo e forte possibilidade de diferenciação por qualidade, origem e atributos específicos.

É justamente nessa diversidade que o Brasil possui uma vantagem estratégica pouco comum. Não somos uma potência de uma única proteína. Temos protagonismo mundial em carne bovina e de frango e uma cadeia suína altamente competitiva. Quando preços relativos, renda ou preferências de consumo mudam, o país participa do mercado por diferentes cadeias produtivas. Poucos concorrentes possuem a mesma combinação de escala, diversidade e capacidade exportadora.

O próximo passo não é simplesmente produzir mais

O mundo continuará consumindo proteína animal. A questão estratégica para o Brasil é outra: quanto desse crescimento conseguiremos transformar em mercado, valor e estabilidade para nossas cadeias?

Os acontecimentos de 2026 oferecem sinais claros. A China demonstra o risco da concentração comercial ao estabelecer limites para o crescimento das importações brasileiras de carne bovina. A União Europeia mostra o peso crescente das exigências sanitárias e regulatórias. A China começa a aparecer também como competidora na avicultura. E novas estruturas logísticas, como a habilitação do Porto de Natal, mostram que outras rotas podem ganhar relevância.

São movimentos distintos, mas todos apontam para a mesma direção. O país mais competitivo não será necessariamente aquele que simplesmente colocar mais toneladas no mercado. Será aquele que possuir mais alternativas. Alternativas de produto, de proteína, de destino, de logística e de mercado.

O Brasil já demonstrou que sabe produzir para o mundo. O desafio desta nova fase é transformar sua escala produtiva em capacidade permanente de acessar diferentes mercados, reduzir dependências e capturar valor onde houver oportunidade.

Porque, no novo mapa mundial da proteína animal, liderança não será apenas produzir mais. Será ter portas abertas — e poder escolher para quem vender.

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