Nas várzeas do Baixo Acaraú e do perímetro Icó-Lima Campos, no Ceará, o produtor de arroz irrigado sabe de uma coisa. Afinal, o preço do arroz que ele colhe não se decide na própria lavoura. Na verdade, ele se decide a mais de dois mil quilômetros dali. As cotações saem do Rio Grande do Sul e chegam, dia após dia, até o armazém cearense. Assim, é esse número que define quanto vale a saca do pequeno produtor. Nesta quarta-feira (2), essas referências voltaram a se mexer. Por isso, o movimento interessa direto a quem produz e a quem compra arroz no Ceará.
Preço do arroz fecha em alta no arroz de melhor rendimento
Segundo Sergio Cardoso, analista da cadeia do arroz, os dados do CEPEA/IRGA-RS mostraram um dia de sinais opostos. Ou seja, as duas principais referências do mercado gaúcho seguiram direções diferentes. Vale lembrar que o CEPEA/IRGA-RS reúne pesquisadores da Esalq/USP e o Instituto Rio Grandense do Arroz. O indicador do arroz em casca com 58% de grãos inteiros fechou em R$ 78,61 por saca. Foi um recuo de 0,01% no dia, mas a alta acumulada em setembro chegou a 0,31%.
Já a média do arroz com 59% a 62% de grãos inteiros, o produto de melhor rendimento, teve outro comportamento. Ela subiu 0,79% e rompeu a marca de R$ 80 por saca, fechando em R$ 80,16. No mês, o acumulado já soma 0,80% de alta. Em dólar comercial, por sua vez, as duas referências fecharam em US$ 15,39 e US$ 15,69. Um dia antes, na terça-feira, os mesmos valores eram de US$ 15,27 e US$ 15,44.
Olhando os últimos dias, o padrão fica mais claro. O arroz de 58% andou de lado: saiu de R$ 77,84, em 27 de agosto, para R$ 78,61 nesta quarta. Enquanto isso, o de 59% a 62% subiu de forma mais consistente, de R$ 78,79 para R$ 80,16 no mesmo período. Portanto, essa diferença de ritmo, e não o valor isolado de um dia, é a informação mais útil para quem vende arroz.
Por que o preço do arroz importa para o Ceará
O Ceará não está entre os grandes estados produtores de arroz do país. Ainda assim, isso não tira o Nordeste da conversa. Afinal, boa parte do arroz consumido na região vem do Sul. Por isso, a cotação do CEPEA/IRGA-RS funciona como régua nacional. Quando ela sobe, o efeito chega à prateleira do mercado cearense semanas depois.
Ao mesmo tempo, o pequeno produtor dos perímetros irrigados do estado sente o mesmo reflexo. Isso vale para Baixo Acaraú, Icó-Lima Campos e para os arrozais das várzeas de Orós. Nesses locais, o produtor negocia a própria safra usando essa mesma referência como ponto de partida. Ou seja, o preço do arroz formado no Rio Grande do Sul não é um dado distante. Pelo contrário, é o número que aparece na conversa entre o produtor cearense e o comprador local.
O que muda a partir disso
A valorização mais forte do arroz com 59% a 62% de grãos inteiros sinaliza algo importante. Isto é, o mercado está pagando melhor por qualidade e rendimento, não por volume qualquer. Por consequência, isso tende a favorecer quem consegue entregar um grão de padrão mais alto. Nesse cenário, cooperativas e produtores dos perímetros irrigados cearenses que investem em manejo e beneficiamento ganham um argumento a mais na hora de negociar. Já quem trabalha com o padrão de 58%, que segue praticamente estável, corre outro risco. Ou seja, pode ficar para trás se o mercado continuar recompensando o rendimento superior nas próximas semanas.
Para o pequeno produtor, a lição prática é dupla. Primeiro, acompanhar o indicador diário do CEPEA/IRGA-RS antes de fechar negócio. Segundo, sempre que possível, buscar orientação técnica para elevar o rendimento de grãos inteiros da própria colheita. Esse detalhe é muitas vezes invisível para quem só olha a manchete. No entanto, é ele que separa uma safra vendida no piso de uma safra vendida no teto do mercado.
Para os próximos ciclos, o comportamento do preço do arroz de melhor rendimento é o indicador que merece atenção redobrada. Se a tendência de alta se confirmar, o Ceará sente o reflexo dos dois lados. Por um lado, no bolso de quem compra; por outro, na mesa de negociação de quem planta.












