Economia

Energia no campo: proposta quer cortar R$ 109 bi da conta de luz

O sol ainda nem despontou no horizonte e o barulho ritmado do motor elétrico já dita o passo na lida matinal. Seja para manter o leite resfriado no tanque, acionar a bomba do poço artesiano ou alimentar o pivô que garante a safra na estiagem, ligar o quadro de força é o primeiro gesto do […]

Pivô central de irrigação funcionando em lavoura ao amanhecer

O sol ainda nem despontou no horizonte e o barulho ritmado do motor elétrico já dita o passo na lida matinal. Seja para manter o leite resfriado no tanque, acionar a bomba do poço artesiano ou alimentar o pivô que garante a safra na estiagem, ligar o quadro de força é o primeiro gesto do dia. Mas, nos últimos anos, esse gesto veio acompanhado de apreensão: ver o disco do medidor girar virou sinônimo de ver a margem do trabalho escorrer pelo ralo da conta de luz.

A verdade que se sente na pele de quem produz é simples: a energia elétrica no Brasil deixou de ser apenas um insumo básico para se tornar um dos maiores gargalos da porteira para dentro e da porteira para fora. O problema, no entanto, não está na força da nossa água, do nosso vento ou do nosso sol. Está no emaranhado de encargos e privilégios que foram sendo empilhados sobre a fatura ao longo dos anos.

Para tentar desmontar essa armadilha, a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace) colocou no papel um plano detalhado que projeta um alívio de R$ 109,1 bilhões nas despesas elétricas do país. A proposta, direcionada a quem planeja os rumos do país, ataca diretamente as distorções que encarecem o sistema produtivo nacional.

O peso dos penduricalhos e das escolhas erradas

Quando você paga sua conta de energia, menos da metade daquele valor corresponde, de fato, à geração e ao transporte da eletricidade até o seu padrão. O restante é composto por impostos, encargos setoriais e subsídios cruzados que beneficiam poucos setores à custa de quem realmente carrega o piano.

A agenda apresentada propõe passar um pente-fino nesses benefícios artificiais. A conta é direta: rever incentivos desnecessários e extinguir taxas criadas para socorrer ineficiências pode devolver bilhões de reais para o bolso de quem trabalha, consome e gera emprego no campo e nas pequenas fábricas do interior.

Gás natural: a peça que falta para baratear a cadeia

Outro pilar decisivo da proposta envolve destravar o uso do gás natural nacional. Hoje, grande parte do gás extraído no litoral brasileiro é reinjetada nos poços ou queima sem utilidade, enquanto as indústrias de fertilizantes e processamento de grãos dependem de insumos importados a preços proibitivos.

Ao ampliar a oferta de gás barato para a indústria de base, cria-se um ciclo virtuoso: reduz-se a necessidade de acionar termelétricas movidas a combustíveis caros nos períodos secos — o que gera as temidas bandeiras tarifárias vermelhas — e garante-se fertilizante mais acessível para a lavoura.

Energia tem que ser motor, não pedágio

O agricultor e o criador conhecem o valor da eficiência. Na roça, desperdício de adubo, semente ou água custa caro e não é perdoado pelo mercado. Já no setor elétrico, a lógica parece ter sido invertida: premia-se a ineficiência e transfere-se o prejuízo para a fatura de quem consome.

Discutir uma redução de quase R$ 110 bilhões não é pedir favor ao Estado. Trata-se de desatar nós burocráticos para que o setor produtivo possa competir de igual para igual com o mundo. O produtor rural não precisa de esmola na tarifa; precisa de regras claras, justiça distributiva nos encargos e energia abundante para continuar transformando esforço em comida na mesa das famílias.

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