Enquanto a cotação do café arábica derretia em Nova Iorque, Kaylane Santos, 22 anos, caminhava entre os pés de café da família. A lavoura fica em Paturi, distrito de Ibiapina, no alto da Serra da Ibiapaba, plantada há quatro anos. Ali, ela cheira os grãos, anota notas sensoriais e pensa no próximo lote. A produção ainda é pequena: dois hectares, oito variedades e dez parentes envolvidos na lavoura.
A milhares de quilômetros dali, o mesmo grão vivia um momento bem diferente. Nesta terça-feira (15), os contratos futuros de café arábica fecharam em forte queda, renovando a mínima desde julho. Dias antes, na quinta-feira (10), a cotação já havia tocado o menor valor em dez semanas.
Duas histórias do café brasileiro se cruzam nesta semana, mas em velocidades opostas. De um lado, a lavoura artesanal que nasce no quintal cearense. Do outro, o Brasil batendo recorde de exportação e derrubando o preço do grão no mercado internacional.
Por que a cotação do café arábica está caindo
A consultoria SAFRAS & Mercado mostra que o contrato para dezembro de 2026 fechou a US¢ 283,65 por libra-peso na terça-feira, queda de 2,3%. A posição para março de 2027, por sua vez, recuou 2,2%, a US¢ 275,05. Já na quinta-feira anterior, segundo a Reuters, o arábica fechou a US$ 2,8815, após bater a mínima de dez semanas, US$ 2,8210.
O motivo é direto: o Brasil está exportando café como nunca. Agosto foi o melhor mês da história para os embarques brasileiros, com mais de 4,1 milhões de sacas de todos os tipos do grão. O ritmo forte seguiu em setembro. Só nos primeiros oito dias úteis do mês, o País exportou 1.798.317 sacas de 60 quilos, com receita de US$ 584,58 milhões. A média diária de volume ficou 51,5% acima da registrada em setembro de 2025. Já o preço médio por saca caiu 10,9% na mesma comparação, sinal de que o mercado está mais abastecido. Em resumo, o preço reflete uma oferta maior do que o mercado esperava.
Soma-se a isso um fator climático. As chuvas têm favorecido a floração da safra de 2027 nas principais regiões produtoras, o que reduz o receio de escassez futura. Corretores ouvidos pela Reuters afirmam que a colheita deste ano já está praticamente concluída. Por isso, o mercado voltou os olhos para o próximo ciclo, que teve início animador.
O que a queda do café arábica muda para o Ceará
A queda na bolsa de Nova Iorque afeta, em primeiro lugar, os grandes polos exportadores do país: Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. São esses estados responsáveis pelo volume que move o mercado de commodity.
No Ceará, porém, a realidade é outra. O café ainda ocupa um espaço pequeno e recente na produção agrícola do Estado. A produção se concentra na Serra da Ibiapaba e no Maciço de Baturité, em cultivos majoritariamente artesanais e orgânicos. Ali, o grão é vendido fora da lógica de bolsa.
É esse o caminho que Kaylane Santos escolheu. Estudante de técnicas em cafeicultura e agroindústria, ela transformou o café de quintal em um projeto de especialidade. Hoje, ela faz análise sensorial própria e vende direto a quem busca um grão de origem. “Quando decidi plantar, muita gente dizia que não daria certo”, contou ela ao Diário do Nordeste, ainda no início da produção. Hoje, garante, o resultado aparece: compradores procuram um café que carrega a identidade da Serra da Ibiapaba e um jeito diferente de plantar.
Quem ganha e quem precisa se adaptar com o café mais barato
A queda beneficia, no curto prazo, torrefadoras e importadores, que compram a matéria-prima mais barata. Para os grandes exportadores brasileiros, porém, o resultado é misto. O volume recorde compensa parte da perda, mas a receita média por saca já sente o efeito da oferta ampliada.
Para o pequeno produtor cearense, o impacto direto da cotação do café arábica é limitado. Ainda assim, o recado estratégico é claro. Quanto mais o café vira commodity de grande escala em outros estados, mais vantagem ganha quem aposta na diferenciação. Essa diferenciação pode ser origem, rastreabilidade ou a história de quem planta. É a lógica oposta à da bolsa. Por isso, produtores como os da Ibiapaba encontram justamente aí o seu espaço.
O que vem pela frente
O mercado internacional já aposta na safra brasileira de 2027, e o clima, até aqui, ajuda. Mas o ciclo do café é longo, sujeito a reviravoltas climáticas e cambiais. Por isso, quem vive da bolsa sabe que a tranquilidade de hoje pode não durar.
Enquanto isso, no alto da Serra da Ibiapaba, a aposta segue sendo outra. Ali, a meta não é competir com o preço de Nova Iorque, mas construir um café que ele nem consegue precificar.












