Natália Esteves Pacheco

Do Sul ao Norte: quando as mulheres do agro deixam de buscar espaço e começam a construir pontes

Durante muito tempo, quando se falava sobre mulheres no agronegócio brasileiro, a discussão girava em torno de uma pergunta: elas têm espaço? Talvez esteja chegando a hora de substituir essa pergunta. A questão agora deveria ser: O que estamos fazendo com o espaço que conquistamos? O último Censo Agropecuário mostrou uma transformação que já vinha […]

Durante muito tempo, quando se falava sobre mulheres no agronegócio brasileiro, a discussão girava em torno de uma pergunta: elas têm espaço?

Talvez esteja chegando a hora de substituir essa pergunta.

A questão agora deveria ser:

O que estamos fazendo com o espaço que conquistamos?

O último Censo Agropecuário mostrou uma transformação que já vinha acontecendo silenciosamente dentro das propriedades. Entre 2006 e 2017, a participação feminina entre os produtores brasileiros passou de aproximadamente 13% para 19%. Dados e levantamentos mais recentes continuam mostrando uma presença feminina relevante na condução dos estabelecimentos agropecuários brasileiros.

Mas talvez um dos aspectos mais interessantes esteja na distribuição territorial dessa presença.

Estudos da Embrapa, a partir dos dados do Censo Agropecuário, mostram a enorme importância do Nordeste na concentração de estabelecimentos dirigidos por mulheres. Norte e Nordeste, portanto, não podem continuar aparecendo na narrativa nacional apenas como regiões a serem “incluídas” no movimento feminino do agro. Existe ali uma enorme diversidade de produtoras, gestoras, agricultoras familiares, pecuaristas e empreendedoras que sustentam cadeias produtivas e economias locais.

O movimento recente confirma isso.

No Ceará, encontros de mulheres do agro e do cooperativismo vêm reunindo milhares de participantes e ampliando uma discussão que passa por empreendedorismo, participação institucional, cooperativismo, capacitação, liderança e fortalecimento das cadeias produtivas.

No Maranhão, encontros e programas de formação vêm aproximando produtoras e lideranças e colocando na pauta temas como sucessão familiar, gestão rural, comunicação e posicionamento. São histórias de mulheres que, muitas vezes, assumiram responsabilidades dentro das propriedades em circunstâncias difíceis e transformaram necessidade em capacidade de gestão.

No Pará, a discussão alcança temas como regularização fundiária, representação sindical, empreendedorismo, gestão e sucessão. Também aparecem iniciativas eminentemente práticas: visitas técnicas, intercâmbio entre propriedades, conhecimento sobre armazenagem, produção de grãos e experiências de continuidade dos negócios familiares.

Em Rondônia, outra importante fronteira agropecuária brasileira, mulheres já participam de debates sobre geopolítica e seus impactos econômicos sobre o agronegócio.

Isso diz muita coisa.

A mulher do agro do Norte e do Nordeste está deixando de ser apresentada somente pela capacidade de resistência. Ela precisa ser reconhecida também como agente econômica, produtora, empresária e liderança institucional.

Diferentes territórios, diferentes trajetórias

No Sul, existe uma história construída em outro contexto.

Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul carregam décadas de cooperativismo, integração agroindustrial, associativismo, sindicalismo rural e estruturas produtivas familiares bastante consolidadas.

Isso produziu outra experiência feminina.

Em muitas propriedades do Sul, a mulher passou anos fazendo gestão sem necessariamente receber o título de gestora. Controlava contas, compras, documentação, funcionários, produção e organização familiar. Participava das decisões, sustentava parte importante da administração e ajudava a construir patrimônio.

Agora essa presença aparece de forma cada vez mais explícita também nas estruturas formais de liderança.

No Paraná, mulheres vêm ampliando sua participação em sindicatos rurais, comissões e espaços de representação. A sucessão familiar também ganhou destaque entre as pautas discutidas pelas novas lideranças.

Em Santa Catarina, iniciativas de formação aproximam produtoras das estruturas sindicais e das federações, preparando mulheres para compreender e ocupar esses espaços.

No Rio Grande do Sul, produtoras e lideranças femininas participam de discussões que vão da produção e sucessão à segurança alimentar, sustentabilidade e representação institucional.

Há, portanto, conhecimentos construídos ao longo de gerações que não deveriam permanecer limitados pelas fronteiras estaduais.

Mas aqui mora um risco.

Não podemos transformar diferenças históricas em hierarquia.

O Sul não tem que ensinar o Norte e o Nordeste a produzir.

Nem o Norte e o Nordeste precisam provar que são o “novo agro”.

Precisamos trocar repertório.

O Sul pode compartilhar décadas de experiência em cooperativismo, integração produtiva, organização de cadeias, assistência técnica estruturada, sucessão familiar e representação sindical.

O Nordeste tem muito a compartilhar sobre produção sob restrição de recursos, adaptação climática, convivência com longos períodos de estiagem, diversificação, empreendedorismo e construção de cadeias produtivas em ambientes desafiadores.

O Norte acrescenta outra dimensão: produzir em territórios imensos, enfrentar desafios logísticos e fundiários particulares e estar, simultaneamente, no centro de uma das maiores discussões mundiais sobre produção de alimentos, floresta e sustentabilidade.

E existe uma nova fronteira onde essas experiências começam a se encontrar: MATOPIBA, Pará, Rondônia e outras regiões de expansão agrícola e pecuária.

São territórios onde famílias vindas do Sul convivem com produtores locais, nordestinos e nortistas; onde diferentes culturas produtivas se encontram; onde novas tecnologias chegam; onde cadeias são construídas e onde grandes empreendimentos convivem com propriedades familiares.

É justamente nesse encontro que o Brasil pode construir uma liderança feminina diferente.

Não uma liderança baseada em sotaque.

Nem em estética.

Nem em número de seguidores.

Mas em competência, conhecimento e capacidade de realização.

A discussão que também precisamos fazer

O agronegócio ganhou visibilidade.

E, com a visibilidade, nasceu também uma estética do agro.

Chapéu, bota, caminhonete, cavalo, lavoura e pôr do sol ficaram bonitos nas redes sociais.

Não há problema nenhum nisso.

A comunicação é importante. Mostrar o campo para quem vive nas cidades também é uma maneira de aproximar produtor e consumidor, explicar como os alimentos são produzidos e valorizar quem trabalha no setor.

O problema começa quando a representação ocupa o lugar da realização.

O agro não pode transformar a mulher rural em personagem de marketing.

Da mesma forma, ocupar espaços destinados às mulheres não pode significar apenas frequentar eventos, produzir fotografias ou colecionar títulos.

Quem pretende representar o setor precisa estar disposto a estudar preço, mercado, legislação, crédito rural, sanidade, tecnologia, gestão de pessoas, sucessão, política agrícola e produção.

Porque governança não é visibilidade.

Governança é responsabilidade.

Existe uma diferença enorme entre estar em cima de um palco falando sobre o agronegócio e estar em uma mesa participando de decisões que afetam produtores, empresas, famílias e comunidades inteiras.

E talvez essa seja a próxima etapa do movimento feminino rural brasileiro.

As primeiras gerações abriram porteiras.

Outras conquistaram microfones.

Agora precisamos ocupar conselhos, diretorias, sindicatos, cooperativas, federações, empresas e mesas de negociação.

A agenda das organizações de mulheres do agro já começa a apontar nessa direção: liderança, gestão, comunicação, sucessão e fortalecimento da participação feminina nas estruturas representativas do setor.

E talvez Norte, Nordeste e Sul tenham chegado ao momento perfeito para fazer isso juntas.

Não precisamos que todas as mulheres do agro sejam iguais.

Precisamos exatamente do contrário.

Que a pecuarista gaúcha conte o que aprendeu depois de décadas trabalhando com genética e pastagens.

Que a produtora cearense mostre o que significa produzir diante das limitações hídricas e climáticas do semiárido.

Que a agricultora maranhense conte como construiu renda e produção em uma região que vive uma enorme transformação agrícola.

Que a produtora do Paraná compartilhe o que aprendeu dentro de uma cooperativa.

Que a paraense coloque sobre a mesa os desafios fundiários, ambientais e logísticos da Amazônia.

Que a catarinense fale sobre integração agroindustrial.

Que a produtora de Rondônia mostre a realidade de uma fronteira produtiva conectada cada vez mais aos grandes mercados.

E que todas elas consigam sentar à mesma mesa sem precisar disputar quem representa melhor o agro brasileiro.

Porque nenhuma região, sozinha, representa toda a complexidade do nosso campo.

Juntas, essas diferentes trajetórias ajudam a contar a verdadeira dimensão do agro brasileiro.

O próximo avanço das mulheres no agronegócio não precisa ser simplesmente aparecer mais.

Precisa ser produzir melhor, administrar melhor, conhecer mais, formar outras mulheres, participar das decisões e construir instituições que continuem funcionando quando os holofotes forem embora.

Porque ser mulher do agro não deveria ser uma tendência.

Para milhares de brasileiras, nunca foi.

Sempre significou trabalho, conhecimento, responsabilidade, produção e construção de futuro.

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