Maria da Silva abriu sua mercearia em Fortaleza como todos os dias. Ao revisar o estoque de arroz, levou um susto: o saco de 5 quilos, que na semana anterior custava R$ 38, agora estava cotado a R$ 42.
Ninguém tinha comprado nada. Na verdade, o preço tinha subido enquanto ela dormia, determinado por enchentes a 2.500 quilômetros de distância, no Rio Grande do Sul.
Essa cena, infelizmente, se repete em milhares de comércios, restaurantes e cozinhas cearenses. Conta uma história que raramente é contada: a história de como um alimento que ninguém planta no Ceará controla o quanto a região inteira consegue comer.
A Dependência que Ninguém Percebe
O Ceará consome aproximadamente 200 mil toneladas de arroz por ano. Praticamente 100% vem de outras regiões. Mais especificamente, 70% sai do Rio Grande do Sul, enquanto 15% provém de Santa Catarina.
Consequentemente, cada prato de arroz servido em Fortaleza viajou em média 2.500 quilômetros. Viajou em caminhão, pagou pedágio, combustível, margem de lucro de intermediários. Portanto, tudo isso encareceu significativamente o produto final.
Enquanto isso, o Rio Grande do Sul sofria com enchentes em 2024, porém os preços no Ceará não caíram. Muito pelo contrário: subiram. A lógica é previsível: se a oferta do principal produtor diminui, é hora de aumentar os preços agora, antes da escassez real chegar.
Por Que o Ceará Não Produz Arroz?
Essa pergunta tem uma resposta simples, porém frustrante: o arroz exige água. Muita água. E o Ceará historicamente sofreu com a seca crônica.
Houve tentativas de produção irrigada nos vales fluviais. Contudo, quando preços caíram e culturas como milho e feijão ofereceram menos risco, aquelas áreas simplesmente desapareceram das estatísticas.
Hoje, em consequência, o resultado é dependência total do Sul.
A Safra 2025/26: Redução e Incerteza
A safra de arroz 2025/26 começou com sinais preocupantes de contração. A Conab estimou redução de 9,9% na área plantada e, além disso, queda de 13,3% na produção total, projetada em 11,1 milhões de toneladas.
Essa redução é consequência direta dos preços deprimidos em 2025. Particularmente, produtores do Rio Grande do Sul tiveram margens negativas. Por essa razão, plantaram menos arroz e apostaram em soja, milho, culturas mais rentáveis.
Nesse sentido, para o Ceará, isso representa menos oferta chegando ao mercado com dificuldades ainda maiores.
Alagoas Planta. O Ceará Importa.
O Nordeste não é completamente vazio de produção. Vale ressaltar que Alagoas chegou a produzir 50 mil toneladas em 2024. Embora não seja nada perto dos 8,3 milhões do Rio Grande do Sul, é produção real, feita por pequenos produtores.
Importante notar que em fevereiro de 2026, algo inédito aconteceu: a Conab realizou a primeira Aquisição do Governo Federal para arroz produzido em Alagoas. Adquiriu 2,8 mil toneladas da Cooperativa Pindorama, investindo R$ 4,2 milhões.
Essa foi uma operação histórica. Afinal, significa reconhecimento de que a produção nordestina merece ser protegida.
El Niño Chega em 2026: Mais Complexidade
As previsões climáticas, sobretudo as mais recentes, apontam formação de El Niño com probabilidade superior a 90% no segundo semestre de 2026. Para o Ceará, isso significa risco de estiagem. Em contraste, para o Sul, significa mais chuva.
Mais chuva lá, teoricamente, reduziria preços. Todavia, você já conhece a lógica: especuladores compram a notícia de risco antes do risco se materializar, antecipando ganhos.
A Oportunidade do Arroz de Sequeiro
Existe uma modalidade que o Ceará poderia cultivar: o arroz de sequeiro. Diferentemente do irrigado, não exige água constante, apenas chuva na época certa.
Essa variedade representa 8,8% da produção nacional, mas vem crescendo consistentemente. Em 2024/2025, a área plantada cresceu 12,7%.
Particularmente para o Ceará, faz sentido: não exige infraestrutura hídrica complexa, pode ser plantado em terras degradadas, exige menor investimento inicial.
O desafio, porém, é assistência técnica adequada. Felizmente, a Embrapa desenvolveu variedades adaptadas. O que falta é investimento político de fato.
O Que Muda Agora
O Programa Arroz da Gente, lançado em 2024, oferece, principalmente, crédito com juros menores, acompanhamento técnico, garantia de comercialização. Além disso, a meta é beneficiar 10 mil famílias produtoras em 200 municípios de 14 estados, incluindo o Ceará.
Parece promissor, é verdade. Porém, descentralizar 70 anos de concentração leva tempo, talvez até décadas.
Para Maria da Silva
A dona de mercearia cearense provavelmente não verá o Ceará autossuficiente em arroz. Entretanto, seus filhos podem ver o dia em que o arroz que comem foi plantado aqui perto. Que gerou renda para um vizinho. Que não precisou viajar 2.500 quilômetros.
Esse dia, finalmente, ainda é possibilidade, não certeza.











