Leandro Mirra

Seguro Rural: entre o risco que sobe e a oferta que encolhe, como o produtor pode se proteger

Poucos temas resumem tão bem os paradoxos do agro brasileiro quanto o seguro rural. De um lado, uma atividade exposta como poucas a fatores que ninguém controla — clima, pragas, intempéries. De outro, justamente quem mais precisa de proteção é quem mais encontra dificuldade para contratá-la. O nó da oferta e do subsídio O seguro […]

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Poucos temas resumem tão bem os paradoxos do agro brasileiro quanto o seguro rural. De um lado, uma atividade exposta como poucas a fatores que ninguém controla — clima, pragas, intempéries. De outro, justamente quem mais precisa de proteção é quem mais encontra dificuldade para contratá-la.

O nó da oferta e do subsídio

O seguro rural envolve um risco altíssimo e difícil de pulverizar. Por mais que hoje se consiga prever sazonalidade e modelar uma série de variáveis, ainda falta controle e padronização no campo. O resultado é um seguro caro e de oferta limitada. O principal mecanismo de apoio, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), deveria ajudar a fechar essa conta, mas vem perdendo força.

Os números preocupam. Em 2025, o orçamento do PSR sofreu corte de cerca de R$ 445 milhões, uma redução de aproximadamente 42%. A área segurada, que já chegou a 14 milhões de hectares, recuou para a casa dos 3,2 milhões em 2025, o menor desempenho em 10 anos. E há um efeito perverso: com menos recursos, as seguradoras tendem a priorizar culturas e regiões de menor risco — deixando de fora exatamente quem está mais exposto.

O que não dá para terceirizar

É justo cobrar uma política pública mais robusta e previsível para o seguro rural; essa é uma pauta legítima do setor. Mas seria um erro o produtor cruzar os braços à espera de subsídio. Existe uma parte da equação que está nas mãos dele.

E aqui o seguro encontra um velho conhecido desta coluna: a profissionalização. Quanto maior o nível de governança, de domínio da operação e de qualidade das informações, mais “segurável” o produtor se torna. A seguradora precifica risco e incerteza; quem opera de forma manual, sem dados e sem controle, é, por definição, mais arriscado (e paga mais caro por isso, quando consegue contratar). Não custa lembrar que a maior parte dos produtores ainda é de pequeno porte e opera de forma pouco profissionalizada.

Gestão de risco é mais do que apólice

Proteger a operação não se resume a comprar um seguro. É construir uma estratégia de risco que combine vários instrumentos:

  • Governança e dados: registros confiáveis de produtividade, custos e histórico tornam a operação mais previsível (e mais barata de segurar).
  • Uso inteligente do que existe: bem assessorado, o produtor acessa as linhas de seguro e de subvenção disponíveis e dimensiona a cobertura certa para o seu risco real.
  • Instrumentos complementares: mercado futuro, barter, contratos a termo e diversificação ajudam a estabilizar a receita num ambiente que nunca será 100% controlável.
  • Estrutura jurídica adequada: operar como empresa, com contratos bem desenhados, amplia o leque de proteções disponíveis.

O seguro rural brasileiro tem, sim, problemas estruturais de oferta e de financiamento que precisam ser enfrentados no debate público. Mas, enquanto essa agenda avança, o produtor que trata a gestão de risco como parte central do negócio — e não como um detalhe burocrático — sai na frente. Num setor em que nem tudo pode ser previsto, ter domínio sobre aquilo que se pode controlar já é meio caminho andado.

Fontes dos dados: Ministério da Agricultura e Pecuária (PSR) e reportagens de CNN Brasil, Gazeta do Povo e Revista Cultivar, 2025.

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