Agro Milho

Quando o milho mais barato do ano traz prejuízo para quem planta

João Batista fechou a porta da sua fazenda em Iguatu, interior do Ceará, sem conseguir controlar a raiva. Acabava de receber a cotação de junho: milho a R$ 64,50 por saca. Era a mínima do ano. E ele tinha 120 sacas esperando venda. Na verdade, a raiva não era só com o preço. Era com […]

João Batista fechou a porta da sua fazenda em Iguatu, interior do Ceará, sem conseguir controlar a raiva. Acabava de receber a cotação de junho: milho a R$ 64,50 por saca. Era a mínima do ano. E ele tinha 120 sacas esperando venda.

Na verdade, a raiva não era só com o preço. Era com o silêncio. Enquanto isso acontecia, infelizmente nenhuma manchete importante falava sobre aquilo. As notícias gritavam sobre recorde de safra no Brasil. Mas João, que plantou e colheu, estava perdendo dinheiro.

Essa, portanto, é a história invisível do milho em junho de 2026.

A Safra Recorde Que Não Enriqueceu o Pequeno Produtor

A safra 2025/26 foi recorde. Com certeza, o Brasil produziu 138,4 milhões de toneladas de milho — a maior quantidade em toda a história. Você pode pensar que recorde significa prosperidade. Contudo, para quem planta, recorde significou preços no chão.

Particularmente no Ceará, a situação é ainda mais delicada. Afinal, o estado registrou queda de 18.426 toneladas na produção de milho 1ª safra em relação à previsão anterior. Enquanto isso, produtores de Mato Grosso e Paraná colhiam cada vez mais.

Em consequência, concentração de produção significa volatilidade de preços para quem não está no centro.

Por Que o Preço Caiu Agora?

A explicação, fundamentalmente, está em dados mundiais. A Conab revisou para cima os estoques globais de milho em junho. Consequentemente, a expectativa é que o mundo tenha 281,22 milhões de toneladas em estoque na safra 2026/27.

Mais estoque significa menos urgência de compra. Logo, menos urgência significa preço cai. Especialmente para quem está longe dos portos principais. Portanto, o milho cearense compete com o milho paranaense e mato-grossense pelo mesmo mercado, porém com desvantagem logística.

Além disso, de forma adicional, os Estados Unidos mantêm estoques recordes: 229,1 milhões de toneladas em junho. Isso pressiona fortemente os preços globais para baixo. E quando preços globais caem, produtores brasileiros desconectados sofrem primeiro.

A Safrinha Chega em Junho: Preocupação Aumenta

A safrinha, aquela segunda safra de milho plantada após a colheita de outras culturas, representa 80% de toda produção brasileira. Em junho, particularmente, ela chega aos mercados em volume significativo.

Sobre esse volume, o que se sabe? Que será colhido em contexto de preços baixos. Que produtores que pagaram empréstimo para plantar, que compraram fertilizante caríssimo, que investiram em manutenção — todos eles receberão menos.

Vale ressaltar, sobretudo, que a situação no Ceará é peculiar porque a safrinha é menos expressiva aqui. O estado sofre com regularidade de chuva incerta, o que afeta significativamente segundo plantio.

A Próxima Safra 2026/27: Ainda Mais Incerteza

As previsões para 2026/27 indicam redução global na produção de milho. Especificamente, a USDA prevê queda de 1,3% em relação à safra recorde atual. Portanto, menos milho no mundo.

Paradoxalmente, isso deveria beneficiar quem planta. Entretanto, os estoques globais altos significam que faltará demanda urgente por novo milho durante vários meses ainda.

Importante notar, assim, que Brasil verá redução de apenas 1,7% em estoque. Ou seja, ainda teremos muita reserva guardada, pressionando preços para baixo até setembro, outubro.

O Que Muda Agora Para o Pequeno Produtor Cearense

O pequeno produtor tem poucas opções disponíveis. Felizmente, o governo oferece Garantia de Preço Mínimo para milho — porém apenas se comercializar através de cooperativas ou canais formais.

João, da história do começo, está investigando isso agora. Porque esperar por melhora de preço não faz mais sentido quando os gastos já foram feitos.

Além disso, adicionalmente, diversificação é estratégia viável. Muitos produtores cearenses que cultivavam só milho estão testando feijão, sorgo, outras culturas. O risco é maior, porém a dependência de um único preço diminui consideravelmente.

A Matemática Crua de Junho de 2026

Uma saca de milho a R$ 64,50 não cobre custo de produção para a maioria dos pequenos produtores do Ceará. Especialmente aqueles que enfrentaram seca em anos anteriores e estão endividados.

Finalmente, portanto, aquilo que deveria ser colheita de esperança virou colheita de prejuízo.

A próxima safra, consequentemente, dirá se essa é tendência ou apenas um mês difícil.

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