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PT sempre foi contra o agro? Agora Lula pede para o setor se ajoelhar

PT SEMPRE FOI CONTRA O AGRO? AGORA LULA PEDE PARA O SETOR SE AJOELHAR Depois de anos de embates entre governos petistas e pautas defendidas por representações do setor rural, Lula afirma que, diante dos recursos destinados à agricultura, integrantes do agro deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele. A resposta precisa ser […]

PT SEMPRE FOI CONTRA O AGRO? AGORA LULA PEDE PARA O SETOR SE AJOELHAR

PT SEMPRE FOI CONTRA O AGRO? AGORA LULA PEDE PARA O SETOR SE AJOELHAR

Depois de anos de embates entre governos petistas e pautas defendidas por representações do setor rural, Lula afirma que, diante dos recursos destinados à agricultura, integrantes do agro deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele. A resposta precisa ser clara: produtor rural não é súdito, dinheiro público não é favor e o agro brasileiro não se ajoelha diante de político algum.

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que integrantes do agronegócio deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele merece uma resposta firme do campo brasileiro.

Presidente, não.

O agro não se ajoelha para Lula. Não se ajoelha para o PT. Não se ajoelha para a esquerda. E não deveria se ajoelhar para nenhum político, seja ele de direita, de centro ou de esquerda.

Em ato de campanha realizado em Florianópolis, no dia 19 de setembro, Lula relacionou os recursos destinados à agricultura ao apoio político que considera que deveria receber do setor e afirmou que, diante desse dinheiro, integrantes do agro deveriam não apenas votar nele, mas se ajoelhar.

É uma frase especialmente infeliz porque parece confundir três coisas que, numa democracia, precisam permanecer rigorosamente separadas: Estado, governo e governante.

O dinheiro público não pertence a Lula. O Plano Safra não pertence ao PT. E produtor rural não deve obediência política a quem ocupa temporariamente o Palácio do Planalto.

QUEM DEVE AGRADECER A QUEM?

Talvez seja necessário olhar para os números antes de exigir que alguém se ajoelhe.

Em 2023, primeiro ano do atual governo Lula, o PIB brasileiro cresceu 2,9%. A Agropecuária avançou impressionantes 15,1%, segundo o IBGE. A produção de soja cresceu 27,1% e a de milho, 19%, com safras recordes naquele ano.

Em 2025, novamente, a Agropecuária apresentou desempenho muito superior ao conjunto da economia: enquanto o PIB brasileiro avançou 2,3%, o setor agropecuário cresceu 11,7%. A Indústria cresceu 1,4% e os Serviços, 1,8%. Milho e soja voltaram a registrar produções recordes.

No primeiro trimestre de 2026, considerando os quatro trimestres encerrados naquele período, a Agropecuária acumulava crescimento de 7,5%, diante de crescimento de 2% do PIB total.

Esses dados não significam que o agro sozinho sustente toda a economia brasileira. Indústria e serviços também são fundamentais. Mas demonstram algo impossível de esconder: o campo foi um dos grandes motores do crescimento econômico brasileiro em momentos decisivos dos últimos anos.

Enquanto Brasília discute política, o produtor está produzindo. Enquanto políticos discursam, alguém está plantando soja, milho, algodão, café, frutas e hortaliças, criando bovinos, aves e suínos e movimentando milhares de municípios brasileiros.

É essa gente que deveria se ajoelhar?

PLANO SAFRA NÃO É FAVOR DE LULA

O governo Lula anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/27. É muito dinheiro. Mas existe uma diferença fundamental: não é dinheiro de Lula.

O presidente não tira centenas de bilhões da própria conta para entregar ao produtor. Plano Safra é política pública de crédito rural. Há diferentes fontes de recursos, instituições financeiras e, em determinadas linhas, participação do Tesouro na equalização de juros.

Portanto, anunciar bilhões para o campo não transforma o presidente em benfeitor pessoal do produtor. Governar é obrigação. Criar condições para que um dos setores fundamentais da economia continue produzindo também é obrigação do Estado.

O agricultor não deve ajoelhar-se para agradecer por uma política pública. Da mesma maneira que empresário industrial, comerciante, trabalhador, aposentado ou beneficiário de qualquer programa público não deve submissão pessoal ao presidente da República.

Dinheiro público não compra gratidão política.

E COMO ESTÁ A ECONOMIA?

Também não basta anunciar centenas de bilhões de reais em crédito e ignorar o ambiente econômico em que o produtor precisa trabalhar.

A Dívida Pública Federal terminou 2025 em aproximadamente R$ 8,635 trilhões, segundo o Tesouro Nacional. Em junho de 2026, o Governo Central apresentou déficit primário de aproximadamente R$ 48,2 bilhões no mês.

A taxa de investimento brasileira ficou em 16,8% do PIB em 2025 e recuou para 16,5% no primeiro trimestre de 2026. Esses indicadores alimentam uma discussão legítima sobre a condução fiscal do país, a sustentabilidade das contas públicas e seus efeitos sobre juros, confiança e custo de capital.

É verdade, por outro lado, que seria incorreto dizer que todos os indicadores econômicos são negativos: o PIB cresceu nos últimos anos e a inflação em 12 meses estava em 4,22% em agosto de 2026, depois de uma deflação mensal de 0,32%.

Mas o produtor não vive de propaganda econômica. Ele vive de margem. Sabe quanto custa financiar uma máquina, comprar fertilizante, formar uma lavoura e carregar os juros do custeio e do investimento. E sabe que bilhões anunciados em Brasília não significam necessariamente dinheiro barato e abundante chegando dentro da porteira.

PT E AGRO: OS CONFLITOS EXISTEM

É historicamente exagerado afirmar literalmente que absolutamente toda política dos governos do PT foi contrária ao agronegócio. Os próprios governos Lula tiveram Planos Safra, políticas de crédito rural e ações de abertura de mercados.

Mas isso não apaga uma realidade igualmente documentada: em diversas das grandes disputas políticas e fundiárias das últimas décadas, o PT e importantes representações do agronegócio estiveram em lados opostos.

O marco temporal é um exemplo evidente. O PT posicionou-se contra a tese defendida por importantes entidades e parlamentares ligados ao setor rural como mecanismo de segurança jurídica para propriedades.

Em 2023, depois da aprovação do projeto pelo Congresso Nacional, Lula vetou pontos centrais do texto. A Frente Parlamentar da Agropecuária trabalhou pela derrubada dos vetos e o Congresso posteriormente restabeleceu parte dos dispositivos. Isso não é opinião. É história legislativa recente.

Há também divergências antigas sobre reforma agrária, ocupações de propriedades, demarcações de terras, legislação ambiental e outros temas relacionados à propriedade e à produção rural.

O produtor tem todo direito de avaliar cada uma dessas posições e formar sua própria conclusão política. Mas tentar apagar esses conflitos e, depois, exigir gratidão do agro porque o governo anunciou recursos públicos é uma simplificação conveniente da história.

NÃO É A PRIMEIRA VEZ QUE LULA ENTRA EM CONFRONTO COM O SETOR

A tensão tampouco começou agora. Em 2023, Lula afirmou publicamente que parte do agronegócio tinha um “problema ideológico” com seu governo. No episódio envolvendo a Agrishow daquele ano, o presidente também utilizou expressões duras em meio à disputa política relacionada à feira.

Agora, em 2026, chega-se a uma frase ainda mais simbólica: o agro deveria se ajoelhar.

Não, presidente. Democracia não funciona assim.

QUANDO A SAFRA QUEBRA, QUEM PAGA A CONTA?

Existe algo que talvez Brasília esqueça com facilidade. Produzir é assumir risco.

Quando falta chuva, não é Lula quem paga o prejuízo. Quando chove demais, não é o PT que cobre a perda. Quando uma praga destrói a lavoura, não é o presidente que entrega patrimônio ao banco. Quando o preço de uma commodity despenca, não existe discurso político que devolva automaticamente a margem perdida.

É o produtor quem coloca terra, máquinas, capital e patrimônio em risco. É ele quem emprega, contrata financiamento, assina a CPR, paga a parcela no vencimento e precisa produzir novamente no ano seguinte.

Por isso, existe algo profundamente inadequado na ideia de que esse homem ou essa mulher deveria dobrar os joelhos diante de um presidente porque recebeu acesso a uma política pública.

O AGRO NÃO TEM DONO

E existe uma lição ainda maior nesse episódio. O agro não pertence a Lula. Não pertence ao PT. Mas também não deveria pertencer automaticamente a qualquer outro partido ou liderança política.

O campo precisa ter independência. Quando um governo fizer algo bom para o produtor, que seja reconhecido. Quando fizer algo ruim, que seja cobrado. Quando uma medida da esquerda beneficiar o setor, que se diga. Quando uma medida da direita prejudicá-lo, que também se diga.

Representatividade verdadeira não significa submissão ideológica. Significa colocar o produtor em primeiro lugar.

PRESIDENTE, O PRODUTOR TRABALHA DE PÉ

Presidentes passam. Ministros passam. Partidos entram e saem do poder. Mas quando terminar a eleição, os palanques forem desmontados e os discursos acabarem, o produtor continuará lá.

Acordando antes do sol. Plantando. Criando. Colhendo. Empregando. Pagando impostos. Gerando riqueza. Alimentando cidades. Exportando para o mundo.

O presidente da República merece o respeito institucional correspondente ao cargo. Mas respeito institucional não significa submissão.

Lula pode apresentar os resultados de seu governo. Pode defender seu Plano Safra. Pode disputar politicamente o apoio do setor.

O que não deveria fazer é esperar que produtores rurais se ajoelhem diante dele por causa de recursos públicos. Porque dinheiro público não pertence ao presidente. Porque política pública não é favor. Porque voto não é moeda de agradecimento. E porque produtor rural não é súdito de ninguém.

Presidente Lula, o agro brasileiro não se ajoelha.

Não se ajoelha para o PT. Não se ajoelha para a esquerda. Não se ajoelha para a direita.

O PRODUTOR RURAL TRABALHA DE PÉ, PRODUZ DE PÉ E É DE PÉ, OLHANDO NOS OLHOS DE QUALQUER PRESIDENTE DA REPÚBLICA, QUE DEVE COBRAR RESPEITO.

FONTES E DADOS CONSULTADOS

  1. IBGE — PIB cresce 2,9% em 2023; Agropecuária avança 15,1%.
  2. IBGE — PIB cresce 2,3% em 2025; Agropecuária avança 11,7%.
  3. IBGE — Contas Nacionais Trimestrais, primeiro trimestre de 2026.
  4. Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra 2026/2027.
  5. Tesouro Nacional — Dívida Pública Federal encerra 2025 em R$ 8,635 trilhões.
  6. Ministério da Fazenda — Resultado do Governo Central de junho de 2026.
  7. Senado Federal — histórico legislativo do marco temporal e dos vetos presidenciais.
  8. Registros jornalísticos da declaração presidencial em Florianópolis, em 19 de setembro de 2026, publicados por CNN Brasil e Folha de S.Paulo.
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