Agro Algodão

Algodão no Ceará: o retorno ao semiárido

Em outubro de 2025, colheitadeiras avançaram sobre um campo branco de algodão no Ceará, em Tabuleiro do Norte, na Chapada do Apodi. Ali, a Cooperativa dos Algodoeiros do Apodi (Coapa) reuniu 120 famílias de pequenos produtores em 1.200 hectares. Foi a primeira colheita de um projeto que une cooperativismo, tecnologia e práticas regenerativas de solo. […]

Algodão no Ceará: o retorno ao semiárido

Em outubro de 2025, colheitadeiras avançaram sobre um campo branco de algodão no Ceará, em Tabuleiro do Norte, na Chapada do Apodi. Ali, a Cooperativa dos Algodoeiros do Apodi (Coapa) reuniu 120 famílias de pequenos produtores em 1.200 hectares. Foi a primeira colheita de um projeto que une cooperativismo, tecnologia e práticas regenerativas de solo.

A cena marca um retorno. Décadas atrás, o Ceará já havia sido um dos maiores produtores de algodão do Brasil, até a praga do bicudo praticamente varrer a cultura do estado. Hoje, porém, o algodão no Ceará volta a ganhar espaço, puxado por novas variedades, irrigação e investimento em tecnologia.

O retorno do algodão ao semiárido do Ceará

A retomada não é espontânea. Desde 2019, o Governo do Ceará mantém o Programa de Modernização do Algodão, em parceria com Embrapa, Centec e Ematerce. Segundo Euvaldo Bringel, coordenador do programa, o crescimento da cotonicultura já puxou também a expansão de outros grãos, como soja, sorgo e milho.

Atualmente, a produção se concentra em três polos: Cariri, Sertão Central e Chapada do Apodi. Na Fazenda Nova Agro, em Tabuleiro do Norte, a produtividade chegou perto de 300 arrobas por hectare, acima da média nacional. Para o administrador da fazenda, Daniel Borges, os investimentos em tecnologia e manejo explicam esse resultado.

Novas variedades tornam o algodão no Ceará mais competitivo

O avanço técnico passa, sobretudo, pela genética. A Embrapa Algodão desenvolveu a variedade BRS 433FL B2RF, hoje usada em parte das áreas cearenses. Segundo Liv Soares Severino, chefe-geral da Embrapa Algodão, a indústria têxtil local já percebeu a qualidade do algodão produzido no estado.

Na Chapada do Araripe, a Embrapa também lançou a BRS Araripe, variedade resistente ao bicudo e adaptada tanto ao cultivo irrigado quanto ao de sequeiro. Para o pesquisador Fábio Aquino de Albuquerque, o clima de alta luminosidade do sertão cearense favorece o desenvolvimento da planta.

Em Limoeiro do Norte, o agrônomo Wilson Ferreira, da empresa Terra Fértil, já registrou produtividade de cinco mil quilos por hectare em algumas áreas. Esse número se equipara ao do Cerrado, um dos berços tradicionais do algodão brasileiro.

Irrigação, tecnologia e cooperativismo movem o algodão no Ceará

A tecnologia não se resume à semente. Na Chapada do Apodi, a colheita da Coapa usa drones para monitoramento e bioinsumos no controle de pragas. Além disso, o projeto adota práticas regenerativas que ajudam a preservar o solo entre as safras.

O modelo cooperativo também muda a equação para o pequeno produtor. Em vez de investir sozinho em maquinário caro, as 120 famílias da Coapa dividem estrutura e conhecimento técnico. Assim, o custo de entrada na cultura do algodão cai, e o risco se reparte entre todos.

A irrigação segue como outro pilar dessa retomada. Segundo Daniel Borges, o trabalho no solo aumenta a capacidade de armazenar água, e os investimentos em irrigação elevam diretamente a produtividade. Por isso, os perímetros irrigados da Chapada do Apodi ganham peso estratégico no projeto.

Preço internacional e certificação: o próximo passo do algodão no Ceará

Mesmo com produtividade em alta, o desafio comercial permanece. Hoje, 98% da pluma processada pela Santana Textiles vem da Bahia, segundo Daniel Olinda, diretor institucional da Nova Agro. Para ele, ainda há muita margem para o produtor cearense investir, já que a demanda existe e a distância da Bahia encarece o transporte.

O preço pago ao produtor também depende do mercado internacional de algodão, que oscila conforme a demanda têxtil global. Por isso, cadeias como a da Coapa apostam na certificação e no algodão regenerativo como diferencial competitivo. Esses selos podem abrir portas em mercados que pagam melhor por origem sustentável.

O caminho ainda é recente. Contudo, os números já mostram uma direção clara: entre 2018 e 2020, a área de algodão de sequeiro no Cariri saltou de 30 para 1.400 hectares. Se esse ritmo continuar, o algodão no Ceará pode voltar a ocupar o lugar que teve décadas atrás, agora sustentado por tecnologia, cooperativismo e o trabalho de quem planta em menor escala.

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