Xico Graziano

Protecionismo e avanço tecnológico: o exemplo do agro brasileiro

Abertura comercial impulsionou a competitividade do campo, enquanto protecionismo travou a indústria, que perdeu espaço e produtividade. Qual a política comercial mais recomendada para um país alcançar o desenvolvimento: abrir ou fechar sua economia? Reside aqui um velho dilema do Brasil. Historicamente, o Brasil se coloca entre as economias mais fechadas do mundo. Sua corrente de comércio, […]

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Abertura comercial impulsionou a competitividade do campo, enquanto protecionismo travou a indústria, que perdeu espaço e produtividade.

Qual a política comercial mais recomendada para um país alcançar o desenvolvimento: abrir ou fechar sua economia? Reside aqui um velho dilema do Brasil.

Historicamente, o Brasil se coloca entre as economias mais fechadas do mundo. Sua corrente de comércio, que soma as exportações com as importações, tem variado ao redor de 25% do PIB. A média global está próxima de 50%.

Considerando os últimos 30 anos, países que avançaram no desenvolvimento abriram fortemente suas economias, como Coreia do Sul, Singapura, Chile e, mais recentemente, Vietnã. Neles, a corrente de comércio sobe a até 100% do PIB.

A grande restrição brasileira à abertura comercial recai sobre as importações consideradas, desde os anos de 1950, como danosas ao fortalecimento do parque industrial interno. Assim, adotamos o modelo de substituição de importações como receita para o progresso.

Elevados subsídios estatais foram direcionados para erigir a indústria local, enquanto tarifas elevadas de importação garantiam reserva de mercado. Funcionou até chegar a globalização. Nesse período, em consequência, criou-se uma cultura protecionista, que influenciou a política.

Fernando Collor, eleito presidente em 1989, mudou a história. Iniciou a abertura da economia dizendo que os carros brasileiros pareciam “carroças”. Foi chocante, mas ele estava correto: as barreiras comerciais causavam atraso tecnológico.

Naqueles tempos, ouvi do então senador Fernando Henrique Cardoso uma frase lapidar:

“O problema não está na globalização, que será inevitável, mas em quem controla o processo, nós ou eles”. Ou seja, o Brasil poderia tirar vantagem da abertura comercial. O economista Antônio Kandir é uma boa testemunha dessa época.

Com a estabilização da economia, obtida pelo Plano Real, quem se aproveitou das oportunidades globais foi o agronegócio. O Brasil começou a ampliar e diversificar suas exportações agropecuárias, por duas razões:

1) de um lado, o desenvolvimento tecnológico e a expansão da fronteira produtiva; de outro, 2) a crescente demanda internacional de alimentos e matérias-primas.

O setor exportador do agro se habilitou, ofertando produtos de boa qualidade, com preços competitivos. Hoje, lidera o mercado mundial de 9 produtos: café, açúcar, suco de laranja, soja, carne de frango, carne bovina, celulose, algodão e fumo. No milho e etanol, está em 2° lugar.

Em 2025, as exportações do agronegócio somaram US$ 169,2 bilhões, representando 48,5% das exportações totais do país. Subtraindo-se o valor das importações agrícolas, que totalizaram US$ 20,2 bilhões (produtos alimentares e insumos agrícolas), resulta em um superavit comercial de US$ 149 bilhões. Altamente positivo.

No mesmo período, a indústria de transformação apresentou um deficit de US$ 71,1 bilhões na balança comercial, o maior desde 1997. Totalmente negativo. Por que a indústria brasileira não se tornou competitiva tal como a agricultura?

Aqui está o X da questão: ao permanecer, por décadas, protegida contra a concorrência externa, a indústria pouco avançou em produtividade e inovação, comendo poeira no jogo da competição global. Tal criança mimada, não aprendeu a enfrentar a dureza da concorrência.

O brasileiro percebe o custo dessa atrofia industrial ao comparar o preço de certos bens, um celular ou um veículo, por exemplo, com seus similares no exterior: aqui, no país mais pobre, é sempre mais caro. O paradoxo normalmente é explicado pelo “custo Brasil”. Meia verdade.

Existe, sim, a competição desleal, como dumping, caracterizada nas normas internacionais da OMC, que deve ser combatida. Agora, tratar toda importação como prejudicial significa namorar o isolamento. Protege o mercado interno, mas eleva o risco do atraso tecnológico.

Nesse contexto se coloca o recente relatório do Escritório de Representação Comercial da Casa Branca, o USTR, sugerindo uma taxa de 25% sobre as exportações brasileiras. Pátria do liberalismo econômico, os EUA apresentam um deficit na balança comercial da ordem de US$ 1,2 trilhão. Trilhão.

A América do Norte se tornou o grande supermercado do mundo. Com uma característica marcante: grande parte dos bens que importa são oriundos de empresas norte-americanas, instaladas no exterior. Foram em busca de menores custos de produção.

Donald Trump prometeu alterar essa situação. Mas as leis básicas da economia continuam em vigor: subir as alíquotas de importação tende a elevar o preço das mercadorias aos consumidores norte-americanos. Há, portanto, claros limites para esse novo protecionismo trazido por Donald Trump.

Em minha opinião, ele quer rebaixar as tarifas brasileiras sobre produtos norte-americanos, como o etanol. E negociar outras coisas, como terras-raras. Bobo, não é. Para o Brasil, fechar o comércio internacional piora a estrada do futuro. É o que mostra o aprendizado da história. Se alguém tem dúvidas, olhe para a Venezuela, que empobreceu. Ou para o Paraguai, que logo ultrapassa o Brasil.

Fonte: https://www.poder360.com.br/opiniao/protecionismo-e-avanco-tecnologico-o-exemplo-do-agro-brasileiro/

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