Natália Esteves Pacheco

De onde virão os bezerros?

A pecuária brasileira aprendeu a terminar boi. Nos últimos anos, avançamos em confinamento, suplementação, terminação intensiva a pasto, genética, nutrição e gestão. Construímos estruturas maiores, encurtamos ciclos e buscamos colocar mais arrobas no mercado em menos tempo. Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2025, o Brasil confinou 9,25 milhões de bovinos, segundo o […]

De onde virão os bezerros?

A pecuária brasileira aprendeu a terminar boi.

Nos últimos anos, avançamos em confinamento, suplementação, terminação intensiva a pasto, genética, nutrição e gestão. Construímos estruturas maiores, encurtamos ciclos e buscamos colocar mais arrobas no mercado em menos tempo.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2025, o Brasil confinou 9,25 milhões de bovinos, segundo o Censo de Confinamento da dsm-firmenich, crescimento de 16% em apenas um ano. Quando considerados conjuntamente confinamento e Terminação Intensiva a Pasto (TIP), estimativas apresentadas pela ABIEC apontam 11,2 milhões de animais terminados nesses sistemas em 2025.

Estamos ficando muito bons em terminar.

Uma pergunta anterior ao cocho

Mas existe uma pergunta anterior ao confinamento, ao cocho e à dieta:

De onde virão os bezerros?

Porque todo boi terminado começou muito antes.

Antes do confinamento, houve uma recria. Antes da recria, uma desmama. Antes da desmama, um nascimento. Antes do nascimento, uma gestação.

E antes da gestação existia uma matriz que alguém decidiu manter no rebanho.

Talvez tenhamos dedicado tanta atenção à ponta final da cadeia que seja hora de voltar os olhos novamente para o seu início.

O abate de fêmeas e os bezerros de amanhã

Em 2025, o Brasil abateu 42,94 milhões de bovinos sob algum tipo de inspeção sanitária, o maior número da série histórica do IBGE.

Mas outro dado merece atenção.

O abate de fêmeas cresceu pelo quarto ano consecutivo. Somente entre 2024 e 2025, aumentou 18,2%.

Durante determinada fase do ciclo pecuário, essas fêmeas ajudam a ampliar a oferta de carne. Existe, porém, uma consequência que demora mais para aparecer.

Parte das fêmeas que deixa o rebanho hoje deixa também de produzir os bezerros de amanhã.

E é justamente nesse intervalo que mora a pergunta.

Enquanto ampliamos nossa capacidade de terminar animais, precisamos garantir nossa capacidade de produzi-los.

Parece óbvio.

Talvez por isso mesmo seja tão fácil esquecer.

O tempo biológico da cria

Um confinamento pode ampliar sua capacidade relativamente rápido. Novos currais podem ser construídos. Mais cochos podem ser instalados. Podemos aumentar a produção de alimento, intensificar hectares e colocar mais animais em terminação.

A cria obedece a outro relógio.

Podemos decidir hoje que queremos aumentar o número de matrizes.

Mas precisamos reter fêmeas, recriá-las, fazê-las atingir condição reprodutiva adequada, emprenhá-las e esperar aproximadamente nove meses de gestação.

Depois o bezerro precisa nascer, sobreviver, ser criado e chegar à desmama.

Não existe tecnologia capaz de eliminar o tempo biológico dessa sequência.

É por isso que a reposição merece ser observada com atenção.

Depois de anos de elevado abate de fêmeas, o mercado começa a mostrar sinais de mudança de ciclo, com valorização dos animais jovens e movimento de retenção de matrizes.

É uma reação esperada.

Bezerro valorizado estimula a cria. A cria valorizada estimula a retenção de fêmeas.

Mas entre o estímulo econômico e um novo bezerro disponível existe tempo.

E talvez seja justamente esse tempo que estejamos subestimando.

Não basta ter vacas

Há ainda outra questão.

Não basta ter vacas.

Precisamos de vacas produzindo bezerros.

Um rebanho de cria não deveria ser avaliado somente pelo número de matrizes dentro da porteira, mas pela sua capacidade de transformar essas matrizes em bezerros efetivamente desmamados.

Prenhez não é bezerro desmamado.

Entre uma coisa e outra existem perdas gestacionais, mortalidade, sanidade, nutrição, habilidade materna, disponibilidade de alimento e manejo.

E antes mesmo da prenhez existe outra decisão fundamental:

Quando queremos que esse bezerro nasça?

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas reprodução e passa a ser sistema de produção.

A vaca precisa emprenhar quando o sistema consegue sustentá-la.

O nascimento precisa conversar com a disponibilidade de alimento.

A maior exigência nutricional da matriz precisa encontrar condições para ser atendida.

A desmama precisa fazer sentido dentro do calendário produtivo.

E a estação de monta precisa estar conectada ao planejamento forrageiro.

Quando isso não acontece, não existe propriamente um ciclo produtivo organizado.

Existem animais nascendo.

E são coisas diferentes.

O calendário da cria no semiárido

Essa diferença torna-se ainda mais evidente em regiões de forte sazonalidade forrageira.

No semiárido, por exemplo, não deveria ser indiferente um bezerro nascer em fevereiro, junho ou outubro.

A disponibilidade de pastagem não é a mesma. A condição corporal das matrizes não é a mesma. O custo para atravessar determinados períodos do ano não é o mesmo.

Produzir bezerros, portanto, não significa simplesmente manter vacas e esperar nascimentos.

Significa planejar.

Quem vai produzir o bezerro do futuro

Talvez esteja aí um dos próximos desafios da pecuária brasileira.

Durante muito tempo, discutimos como produzir o boi que o mercado quer.

Mais jovem. Mais pesado. Mais eficiente. Mais padronizado.

E fizemos avanços importantes.

Agora talvez seja necessário fazer a pergunta anterior:

Quem produzirá o bezerro que esse sistema precisará?

Se os confinamentos continuarem ampliando sua capacidade, se a terminação intensiva a pasto continuar avançando e se continuarmos encurtando o ciclo produtivo, haverá uma demanda crescente por animais jovens capazes de alimentar esses sistemas.

E alguém terá de produzi-los.

Não apenas produzir mais.

Produzir melhor.

Com eficiência reprodutiva. Com estação de nascimento definida. Com sanidade. Com genética. Com planejamento forrageiro. Com taxa de desmame. Com reposição de matrizes. Com um sistema de cria economicamente sustentável.

Talvez o futuro da pecuária intensiva brasileira não dependa apenas de quantos animais conseguiremos colocar nos confinamentos.

Dependa também de quantos conseguiremos produzir antes deles.

Porque podemos ampliar cochos.

Podemos intensificar pastagens.

Podemos aumentar nossa capacidade de terminação.

Mas nenhum confinamento produz bezerros.

E antes de perguntarmos onde vamos terminar tantos bois, talvez esteja na hora de perguntar:

de onde virão os bezerros?

Fontes: IBGE – Pesquisa Trimestral do Abate de Animais (2025); dsm-firmenich – Censo de Confinamento 2025; ABIEC – Beef Report 2026, dados e estimativas Athenagro.

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