Diego Trindade

Passadas as eleições, o que o agronegócio brasileiro pode esperar do novo governo Lula?

Entre juros elevados, endividamento rural, insegurança jurídica e pressão tributária, o setor produtivo entra em um novo ciclo político diante de decisões que poderão definir sua competitividade nos próximos quatro anos. As urnas se fecharam, os discursos eleitorais terminaram e o Brasil já conhece o presidente que governará o país pelos próximos quatro anos. Luiz […]

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Entre juros elevados, endividamento rural, insegurança jurídica e pressão tributária, o setor produtivo entra em um novo ciclo político diante de decisões que poderão definir sua competitividade nos próximos quatro anos.

As urnas se fecharam, os discursos eleitorais terminaram e o Brasil já conhece o presidente que governará o país pelos próximos quatro anos. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, em uma disputa que evidenciou a divisão política do país.

Para o agronegócio brasileiro, entretanto, a pergunta mais importante agora não é quem venceu ou perdeu as eleições. É outra, muito mais objetiva: quais serão as condições para continuar produzindo, investindo, gerando empregos e sustentando uma parcela expressiva da economia nacional?

A eleição passou, mas os problemas do campo permanecem. E não serão resolvidos com discursos, promessas ou anúncios de bilhões de reais em programas governamentais.

O produtor rural não vive de propaganda. Vive de resultados. Precisa de crédito acessível, segurança jurídica, estabilidade econômica, infraestrutura e liberdade para produzir.

E é justamente nesses pontos que o novo mandato presidencial será colocado à prova.

O crédito rural e o avanço do endividamento

Talvez o maior desafio imediato do agronegócio seja financeiro.

O aumento dos custos de produção, combinado com juros elevados, margens comprimidas e dificuldades de comercialização, vem comprometendo a capacidade de pagamento de inúmeros produtores rurais.

O Plano Safra 2026/2027 anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial. Entretanto, análise da FGV Agro aponta que, apesar do crescimento nominal dos recursos, houve retração em termos reais, além de redução das linhas de custeio e comercialização.

Isso revela uma realidade que o governo precisa compreender: anunciar mais recursos não significa necessariamente oferecer melhores condições para produzir.

O crédito caro compromete a rentabilidade, reduz investimentos e pode transformar produtores economicamente viáveis em devedores incapazes de honrar seus compromissos.

Se não houver uma política consistente de financiamento, renegociação de passivos e fortalecimento do seguro rural, o setor poderá enfrentar novos processos de recuperação judicial, concentração patrimonial e dificuldades para pequenos e médios produtores permanecerem na atividade.

O campo precisa de soluções estruturais, não de medidas emergenciais a cada nova crise.

A reforma tributária e o custo de produzir

Outro ponto que merece atenção especial é a implementação da reforma tributária.

Embora a simplificação do sistema seja um objetivo relevante, seus efeitos concretos dependerão da regulamentação, das regras de crédito tributário, dos regimes diferenciados e dos custos de adaptação.

O produtor rural já enfrenta uma estrutura complexa de obrigações fiscais, trabalhistas, ambientais e sanitárias.

Qualquer aumento efetivo de carga tributária ou de custos administrativos poderá reduzir ainda mais a competitividade da produção nacional.

O risco não está apenas no imposto que aparece na nota fiscal. Está também no aumento dos custos dos serviços, dos transportes, dos insumos e de toda a cadeia que sustenta a atividade agropecuária.

É fundamental que o novo governo compreenda que a tributação não pode ser analisada isoladamente da capacidade econômica de quem produz.

Não existe desenvolvimento sustentável quando o custo de produzir cresce mais rapidamente do que a capacidade de gerar renda.

Segurança jurídica e política ambiental

O Brasil possui uma das legislações ambientais mais abrangentes do mundo, e a preservação dos recursos naturais é parte fundamental da sustentabilidade do agronegócio.

Entretanto, a aplicação das normas precisa respeitar critérios técnicos, previsibilidade e segurança jurídica.

Produtores que cumprem a legislação não podem conviver permanentemente com incertezas sobre financiamento, licenciamento, regularização fundiária e utilização econômica de suas propriedades.

As exigências relacionadas ao desmatamento, às restrições de crédito e à comprovação da regularidade ambiental precisarão ser acompanhadas com atenção.

O desafio do governo será conciliar proteção ambiental, desenvolvimento econômico e respeito ao direito de propriedade.

A preservação ambiental e a produção agropecuária não precisam ser adversárias. Pelo contrário, podem caminhar juntas quando existem regras claras, incentivos adequados e respeito à realidade de cada bioma.

A pressão sobre o setor produtivo e os investimentos

O agronegócio brasileiro não depende apenas de boas condições climáticas ou de produtividade. Depende também da estabilidade da economia.

A trajetória das contas públicas, a inflação, os juros, o câmbio e a confiança dos investidores influenciam diretamente as decisões tomadas dentro das propriedades rurais.

Quando o cenário econômico apresenta incertezas, o produtor tende a adiar a compra de máquinas, a ampliação de estruturas, a formação de novas áreas produtivas e a contratação de trabalhadores.

O resultado pode ser uma desaceleração dos investimentos, com consequências para toda a cadeia econômica dos municípios do interior.

O novo governo terá o desafio de demonstrar compromisso com a responsabilidade fiscal e com um ambiente favorável ao investimento privado.

Sem confiança, não existe planejamento de longo prazo. E sem planejamento, o crescimento perde sustentação.

Mercado internacional: oportunidades e riscos

Nem todas as perspectivas são negativas.

O Brasil continuará tendo oportunidades importantes no mercado internacional, especialmente na produção de alimentos, fibras, energia e proteínas animais.

A abertura de novos mercados, a ampliação de acordos comerciais e a diversificação dos destinos das exportações podem beneficiar o agronegócio brasileiro.

O governo Lula apresentou, durante a campanha, propostas de ampliação do crédito, fortalecimento do seguro rural, investimentos em tecnologia e maior inserção internacional da produção agropecuária.

Essas iniciativas precisam ser acompanhadas e avaliadas por seus resultados concretos.

O Brasil não pode depender exclusivamente da eficiência de seus produtores para compensar deficiências de infraestrutura, custos logísticos e insegurança regulatória.

A competitividade internacional exige uma política econômica que reconheça a importância estratégica da produção agropecuária.

O papel das entidades e das lideranças do agro

Passada a disputa eleitoral, surge também uma responsabilidade para as entidades representativas do setor.

O agronegócio precisa de uma representação institucional capaz de apresentar propostas, negociar soluções e cobrar resultados independentemente de quem esteja ocupando o Palácio do Planalto.

Isso não significa abandonar convicções políticas ou deixar de criticar decisões governamentais. Significa compreender que os interesses permanentes dos produtores rurais precisam estar acima das conveniências circunstanciais.

As entidades devem acompanhar de perto a regulamentação tributária, a política de crédito, as normas ambientais, os investimentos em infraestrutura e as condições de acesso aos mercados.

Mais do que proximidade com autoridades, o setor precisa de representatividade, independência e capacidade técnica.

A defesa do agronegócio não pode se limitar aos períodos eleitorais.

O que esperar dos próximos quatro anos?

O novo governo Lula encontrará um agronegócio altamente produtivo, tecnologicamente desenvolvido e com grande capacidade de expansão, mas também pressionado por dificuldades financeiras, custos elevados e exigências regulatórias crescentes.

Existem oportunidades reais de crescimento, sobretudo com a expansão dos mercados internacionais e os avanços tecnológicos. Mas existem riscos que não podem ser ignorados.

O aprofundamento do endividamento, a persistência de juros elevados, eventuais aumentos da carga tributária e a insegurança jurídica poderão comprometer investimentos e reduzir a rentabilidade de diversas atividades.

Por outro lado, políticas consistentes de crédito, infraestrutura, seguro rural e comércio exterior poderão criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento do setor.

O resultado dependerá menos das promessas apresentadas durante a campanha e mais das decisões efetivamente adotadas a partir de agora.

O produtor rural não precisa de privilégios. Precisa de condições para trabalhar, competir e prosperar.

As eleições terminaram. A responsabilidade de governar começa novamente.

E o agronegócio brasileiro, independentemente das preferências políticas de seus produtores, terá de acompanhar cada decisão, cobrar compromissos e defender seus legítimos interesses.

Porque governos passam, mandatos terminam e discursos são esquecidos.

Mas a terra continua precisando ser preparada, o gado continua precisando ser alimentado, a safra continua precisando ser financiada e o Brasil continua precisando de quem produz.

O campo não pode parar a cada mudança ou continuidade de governo.

E quem governa precisa compreender que o agronegócio não pede favores ao Estado. Exige respeito, segurança jurídica e condições para continuar produzindo as riquezas de que o Brasil necessita.

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