De que adianta vestir a camisa da direita em Brasília e, na hora de decidir os rumos do próprio estado, subir no palanque da esquerda?
Em alguns estados, existe uma contradição na política do agronegócio que precisa ser objeto de reflexão.
São pretensas lideranças que se apresentam como conservadoras, defendem a direita nas eleições presidenciais e fazem discursos inflamados em nome do produtor, mas, quando chegam as eleições estaduais, mudam de lado com uma naturalidade impressionante. São as chamadas “tiriricas do agro”: espalham-se conforme a conveniência e, quando não são contidas, sufocam a representação legítima de quem realmente produz.
Em Brasília, são de direita. Nos estados, caminham com a esquerda. E, quando questionadas, sempre aparece uma justificativa conveniente.
Afinal, essas figuras defendem princípios ou apenas seus próprios interesses pessoais?
O produtor rural não pode continuar sendo tratado como massa de manobra por quem utiliza a força e a representatividade do agronegócio para negociar influência política.
A falta de coerência não é apenas um problema moral ou retórico. Ela produz consequências concretas. Quando uma entidade promete defender a segurança jurídica, mas não cobra publicamente a regularização fundiária, a proteção da propriedade e o cumprimento de decisões judiciais, o produtor fica mais exposto a invasões, conflitos e incertezas.
Quando alguém fala em apoio ao campo, mas não apresenta resultados na redução da burocracia, na melhoria das estradas rurais, na ampliação do seguro agrícola ou na oferta de crédito com juros compatíveis, o discurso não paga a conta da produção.
Quando promete defender o produtor diante de novas exigências ambientais, tributárias ou trabalhistas, mas não acompanha projetos de lei, não participa das audiências públicas e não informa a categoria sobre os impactos das medidas, deixa o agricultor descobrir as mudanças apenas quando elas chegam ao seu bolso.
É muito fácil defender determinadas bandeiras diante de uma plateia conservadora. Difícil é sustentar o mesmo discurso quando entram em jogo os interesses pessoais, os cargos, as nomeações e a proximidade com o governo estadual.
É justamente nesse momento que se descobre quem tem princípios e quem tem apenas conveniências.
Não estamos falando do cidadão comum, que tem absoluta liberdade para escolher candidatos de diferentes partidos. Estamos falando daqueles que ocupam posições de comando em federações, sindicatos e entidades agropecuárias e que fazem da identidade política uma espécie de cartão de visitas.
Quem usa o discurso ideológico para conquistar a confiança do produtor precisa ter coragem de explicar suas próprias alianças e apresentar os resultados obtidos por meio delas.
Não se pode exigir fidelidade a determinadas bandeiras no cenário nacional e, ao mesmo tempo, tratar essas mesmas bandeiras como algo descartável nas disputas estaduais.
O agro brasileiro tem problemas demais para ficar refém de conveniências políticas.
Enquanto o produtor enfrenta insegurança jurídica, dificuldades de crédito, custos elevados, falta de infraestrutura e desafios cada vez maiores para continuar produzindo, alguns dirigentes parecem mais preocupados em manter boas relações com quem ocupa o poder.
E o que o produtor recebe em troca?
Fotografias, reuniões, discursos e promessas.
Mas onde estão os resultados?
O produtor deveria cobrar metas objetivas e prestação de contas. Por exemplo:
- Quantos quilômetros de estradas rurais foram recuperados?
- Quantas pontes foram construídas ou reformadas?
- Quais medidas reduziram o tempo e o custo para obter licenças?
- Quantos produtores tiveram acesso efetivo a crédito, seguro rural e renegociação de dívidas?
- Quais ações foram tomadas contra invasões de propriedades e conflitos fundiários?
- Quais projetos foram apresentados para melhorar a armazenagem e o escoamento da produção?
- Quais medidas reduziram a burocracia para transportar, vender e exportar?
- Quantas propostas prejudiciais ao setor foram barradas ou modificadas?
- Quais programas de assistência técnica chegaram de fato às pequenas e médias propriedades?
- Quanto foi investido em pesquisa, conectividade e energia para as áreas rurais?
Esses são resultados que podem ser verificados. Não dependem de slogans, fotografias ou declarações de apoio.
O problema não é conversar com governos de esquerda ou de direita. O problema é transformar a representação do agro em instrumento de conveniência pessoal e não entregar benefícios concretos ao produtor.
Quem realmente representa o campo precisa ter independência para dialogar com qualquer governo, cobrar quando necessário e reconhecer avanços quando existirem. Mas diálogo não pode ser confundido com submissão, e acesso ao poder não pode ser apresentado como resultado.
Se uma entidade mantém proximidade com determinado governo, o produtor tem o direito de perguntar: o que foi conquistado? Houve redução de impostos? Mais crédito? Melhor infraestrutura? Segurança no campo? Menos burocracia?
Se não há respostas claras, é legítimo questionar a quem essa proximidade realmente beneficia.
O que não pode é mudar o discurso conforme a plateia e esperar que ninguém perceba.
A credibilidade não se sustenta apenas com um cargo, um título ou a presidência de uma entidade.
Ocupar a presidência de uma federação não transforma ninguém, automaticamente, em líder do agronegócio. Liderança se conquista pelo respeito, pela confiança e, sobretudo, pelo trabalho realizado.
O agronegócio precisa deixar de confundir representação institucional com protagonismo pessoal. Nem todo aquele que aparece falando em nome do setor representa, de fato, os interesses de quem está dentro da porteira.
Chegou a hora de cobrar coerência, independência e, principalmente, resultados.
Porque o produtor rural pode até aceitar divergências políticas. O que ele não deve aceitar é ser usado como instrumento de um discurso que desaparece quando surgem as conveniências do poder.
O produtor rural não respeita o politicamente correto. Ele respeita o corretamente político.
E ser corretamente político é ter posição, assumir compromissos, sustentar a própria palavra e não utilizar o agro como moeda de troca para interesses pessoais.
O agro não precisa de falsos representantes que sejam de direita em Brasília e de esquerda nos estados por conveniência. Precisa de pessoas que tenham coragem de sustentar suas posições, explicar suas escolhas, apresentar resultados mensuráveis e responder por seus atos.
No final, a pergunta é simples:
Quem muda de discurso conforme o palanque está representando o agro ou representando a si mesmo?












