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E se a cidade tivesse que produzir tudo o que come?

Em ano de eleição, olhar para o caminho dos alimentos pode ajudar a transformar discursos sobre o agro em perguntas sobre o futuro do país. Imagine que amanhã sua cidade tivesse que produzir todos os alimentos que consome. O café servido de manhã, o arroz e o feijão do almoço, as verduras da feira, o […]

E se a cidade tivesse que produzir tudo o que come?

Em ano de eleição, olhar para o caminho dos alimentos pode ajudar a transformar discursos sobre o agro em perguntas sobre o futuro do país.

Imagine que amanhã sua cidade tivesse que produzir todos os alimentos que consome. O café servido de manhã, o arroz e o feijão do almoço, as verduras da feira, o leite das crianças e o pão comprado no fim da tarde.

Por onde começaríamos?

Antes de pensar nas receitas, precisaríamos encontrar terra, água, sementes, conhecimento e pessoas dispostas a produzir. Teríamos que organizar o cultivo, a criação de animais, a colheita, o armazenamento e o transporte. Alguns alimentos ainda dependeriam de processamento, embalagem e refrigeração.

E, depois de tudo isso, faltaria responder a uma pergunta decisiva: todos os moradores teriam condições de comprar essa comida?

Esse exercício de imaginação ajuda a olhar para a produção de alimentos com a atenção que ela merece. Também oferece um ponto de partida para avaliar os discursos políticos que tentam representar o campo.

Quando alguém diz defender o agro, o que, exatamente, está se comprometendo a defender?

Antes da porteira, já existe uma cadeia em movimento

Uma lavoura começa muito antes de a semente chegar ao solo. Há pesquisa, produção de insumos, equipamentos, planejamento, financiamento e assistência técnica. Quem produz precisa tomar decisões e comprometer recursos antes de saber quanto colherá e qual preço receberá.

Na nossa cidade imaginária, quem financiaria esse começo? Como o conhecimento chegaria a quem precisa dele? O que aconteceria com o produtor se uma seca ou uma enchente comprometesse seu trabalho?

Essas perguntas deveriam acompanhar qualquer promessa de apoio à produção rural. Crédito em quais condições? Assistência técnica com qual alcance? Que instrumentos ajudariam a enfrentar as perdas?

A palavra “apoio” ganha significado quando conseguimos identificar como uma proposta funcionaria e quem teria acesso a ela.

Quem está dentro da palavra “agro”?

Ao falar sobre o campo brasileiro, precisamos reconhecer a diversidade de quem produz. Há agricultores familiares, produtores de diferentes portes, cooperativas e empresas. Há atividades, regiões e condições de produção muito distintas.

Uma família que cultiva hortaliças para vender nas proximidades pode enfrentar dificuldades diferentes das de uma cooperativa de leite ou de um produtor de grãos. Mesmo quando compartilham um problema, a capacidade de enfrentá-lo pode variar.

Quem aparece nas campanhas como representante do campo? Quem permanece fora da fotografia? As propostas consideram essas diferenças?

Também precisamos olhar para os trabalhadores. Que condições encontram para exercer suas atividades, se qualificar e viver onde trabalham? Que perspectivas os jovens enxergam para construir sua vida no meio rural?

Representar a produção de alimentos exige ouvir mais de uma voz.

A colheita ainda precisa chegar à mesa

Voltemos à cidade do início. Suponha que ela tenha conseguido produzir arroz, feijão, frutas, leite, ovos e verduras. A tarefa estaria longe de terminar.

Seria necessário organizar o beneficiamento de determinados produtos, armazenar a produção, conservar os alimentos perecíveis e abastecer feiras, mercados, restaurantes e cozinhas. A Embrapa descreve os sistemas alimentares como uma rede que envolve insumos, produção, transporte, processamento, varejo e consumo, além dos impactos dessas atividades sobre a sociedade e o ambiente. Fonte: Embrapa.

Isso amplia a responsabilidade de quem apresenta propostas para o setor. Como melhorar as estradas por onde a produção escoa? Como ampliar o acesso à armazenagem? Como reduzir perdas? Como facilitar a comercialização e garantir a qualidade dos alimentos?

Uma promessa voltada apenas ao momento da produção deixa perguntas importantes sem resposta.

E se a comida existir, mas não couber no orçamento?

Talvez esse seja o ponto mais incômodo do nosso exercício. A cidade poderia organizar sua produção e, ainda assim, ter moradores sem dinheiro suficiente para se alimentar adequadamente.

Por isso, discutir alimentos também exige falar de renda, preços e acesso.

Como criar condições para que o produtor seja remunerado pelo seu trabalho e o consumidor consiga comprar comida? Quais custos pesam ao longo do caminho? Onde estão os obstáculos que uma política pública pode enfrentar? Como fortalecer o abastecimento das escolas e de outras instituições públicas?

O debate precisa chegar tanto à realidade de quem produz quanto à de quem faz contas diante da prateleira. São preocupações que precisam ser tratadas em conjunto.

Quem cuida das condições de continuar produzindo?

Nossa cidade também teria que decidir como utilizar o solo e a água, lidar com resíduos e proteger os recursos dos quais dependeriam as próximas colheitas.

Trazer essas decisões para perto ajuda a compreender por que a responsabilidade ambiental deve fazer parte da discussão sobre produção. Que práticas serão incentivadas? Como os produtores terão acesso a tecnologias adequadas? Como combinar orientação, fiscalização e condições para cumprir as exigências?

Da mesma forma, seria preciso perguntar como reduzir o desperdício no comércio e nas casas. A responsabilidade pelo alimento continua depois que ele sai da propriedade rural.

Quem pede apoio político em nome da produção deveria explicar como pretende cuidar de sua continuidade.

Que perguntas levaremos para as urnas?

Em um debate polarizado, vale aplicar o mesmo critério a qualquer candidatura que use o agronegócio como bandeira: qual é a proposta concreta, como será executada, quem será atendido e como a sociedade poderá acompanhar os resultados?

Quando alguém promete comida mais barata, precisamos entender o caminho para chegar a esse resultado. Quando promete fortalecer o produtor, precisamos saber quais produtores serão alcançados. Quando fala em sustentabilidade, precisamos conhecer as medidas e os recursos previstos.

Reconhecer a importância do campo e questionar suas práticas são atitudes que podem conviver. Valorizar quem produz também significa levar seus problemas a sério o suficiente para cobrar respostas que ultrapassem o slogan.

A cidade do nosso exercício dificilmente resolveria seu abastecimento sem relações com outros territórios. É justamente essa interdependência que a provocação revela: nossa alimentação conecta o campo, a indústria, os serviços, o comércio e a vida doméstica.

Ao ouvir o próximo discurso sobre o agro, talvez valha lembrar do café da manhã, do almoço e da compra do mês. E perguntar:

O que essa proposta muda, de fato, para quem produz, para quem trabalha ao longo da cadeia e para quem precisa comer todos os dias?

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