Natália Esteves Pacheco

A fábrica de bezerros

Ter vacas não significa produzir bezerros Quantas vacas existem na sua fazenda? Provavelmente essa é uma pergunta que a maioria dos produtores consegue responder. Mas existe outra, um pouco mais difícil: quantos quilos de bezerro essas vacas entregaram na última desmama? Talvez seja justamente nessa diferença que esteja uma das discussões mais importantes quando falamos […]

A fábrica de bezerros

Ter vacas não significa produzir bezerros

Quantas vacas existem na sua fazenda?

Provavelmente essa é uma pergunta que a maioria dos produtores consegue responder.

Mas existe outra, um pouco mais difícil:

quantos quilos de bezerro essas vacas entregaram na última desmama?

Talvez seja justamente nessa diferença que esteja uma das discussões mais importantes quando falamos em eficiência na pecuária de cria.

Na coluna anterior, fizemos uma pergunta: de onde virão os bezerros?

Falamos sobre uma pecuária que avança rapidamente na terminação, amplia confinamentos, intensifica pastagens e encurta ciclos produtivos, enquanto precisa garantir que exista reposição suficiente para alimentar esses sistemas.

Mas aumentar a oferta de bezerros não significa simplesmente aumentar o número de vacas.

Antes de perguntarmos quantas matrizes precisamos, talvez seja necessário perguntar:

o quanto produzem as matrizes que já temos?

O que mede a eficiência na pecuária de cria

Uma propriedade pode possuir mil vacas.

Outra também.

No papel, são dois rebanhos de cria do mesmo tamanho.

Produtivamente, podem ser completamente diferentes.

Porque a verdadeira fábrica de bezerros não deveria ser medida apenas pelo número de matrizes existentes dentro da porteira.

Ela deveria ser medida pela quantidade de produto que essas matrizes efetivamente entregam.

E o produto da cria não é a prenhez.

É o bezerro desmamado.

Essa distinção parece pequena, mas muda a maneira de enxergar o sistema.

Uma matriz pode ser exposta à reprodução e não emprenhar.

Pode emprenhar e perder a gestação.

Pode levar a gestação até o final e perder o bezerro no parto.

Pode parir um bezerro vivo que não chega à desmama.

Pode desmamá-lo, mas com peso abaixo do potencial esperado.

Entre colocar uma matriz em reprodução e colocar um bezerro na balança existem vários pontos pelos quais a eficiência pode escapar.

Por isso, uma taxa de prenhez elevada é importante.

Mas ela não conta a história inteira.

Prenhez é etapa. Bezerro desmamado é produto.

Talvez seja justamente por isso que alguns indicadores tradicionais, quando observados isoladamente, possam dar uma sensação de eficiência maior do que aquela que realmente chega ao caixa da propriedade.

O diagnóstico de gestação pode mostrar um bom resultado.

Mas quantos daqueles bezerros nasceram?

Quantos sobreviveram?

Quantos foram desmamados?

E, finalmente:

quantos quilos foram produzidos?

É nesse ponto que a pecuária de cria começa a ser enxergada não apenas como reprodução, mas como sistema produtivo.

O custo da vaca vazia

Cada matriz mantida no rebanho ocupa área.

Consome pastagem, suplemento mineral, água e, dependendo do sistema, volumoso e concentrado.

Exige sanidade.

Demanda mão de obra.

Imobiliza capital.

E permanece dentro da propriedade durante todo o ano, esteja produzindo ou não.

Isso significa que o custo da matriz vazia não está somente no bezerro que ela deixou de produzir.

Está também nos recursos que ela consumiu enquanto não produzia.

Talvez, portanto, uma das perguntas mais importantes da cria não seja simplesmente quantas vacas temos.

Mas quantas dessas vacas estão efetivamente trabalhando para o sistema.

Quilos de bezerro por matriz

E ainda podemos avançar mais.

Mesmo duas matrizes que desmamam um bezerro podem apresentar eficiências muito diferentes.

Uma vaca pode desmamar um bezerro leve.

Outra pode entregar um animal significativamente mais pesado.

Uma matriz muito pesada pode produzir um excelente bezerro, mas exigir mais alimento para sua manutenção.

Outra, de menor tamanho corporal, pode produzir quantidade semelhante de quilos de bezerro consumindo menos recursos.

É por isso que a literatura zootécnica utiliza indicadores que relacionam o peso do bezerro desmamado ao peso da própria matriz e, em avaliações mais completas, à quantidade de matrizes expostas à reprodução e à área utilizada pelo sistema.

A pergunta deixa de ser:

quantos bezerros nasceram?

E passa a ser:

quantos quilos de bezerro foram desmamados para cada matriz que entrou no sistema produtivo?

Essa mudança de perspectiva é importante porque coloca fertilidade, sobrevivência e desempenho dentro da mesma conta.

Não basta emprenhar.

Não basta parir.

Não basta desmamar.

É preciso produzir quilos.

E produzir esses quilos com eficiência.

Mais vacas ou vacas mais eficientes?

Talvez esse seja um ponto particularmente importante quando discutimos a necessidade de aumentar a oferta futura de bezerros no Brasil.

Podemos aumentar a produção colocando mais matrizes no sistema.

Mas também podemos aumentar a produção fazendo com que as matrizes existentes sejam mais eficientes.

As duas estratégias não são iguais.

Mais vacas significam mais necessidade de terra, alimento, água, mão de obra e capital.

Mais eficiência significa diminuir as perdas existentes entre a reprodução e a desmama.

E essas perdas nem sempre estão onde imaginamos.

Podem estar na fertilidade.

Podem estar na condição corporal das matrizes.

Podem estar na sanidade.

Podem estar na mortalidade de bezerros.

Podem estar na genética.

Podem estar no manejo.

Mas também podem estar em algo ainda mais básico:

no momento em que estamos tentando produzir esse bezerro.

A estação de monta começa no pasto

Uma vaca não emprenha independentemente do ambiente em que está inserida.

Ela responde à disponibilidade de alimento, à sua condição corporal, à lactação, ao clima e ao manejo.

Da mesma forma, não deveria ser indiferente para o sistema se um bezerro nasce em uma época de abundância ou de restrição alimentar.

Quando não existe uma estação de reprodução organizada, os partos podem se distribuir ao longo de muitos meses.

Os bezerros nascem em condições diferentes.

As matrizes enfrentam diferentes disponibilidades de alimento.

Os lotes ficam menos uniformes.

O manejo sanitário se torna mais complexo.

A desmama perde padronização.

E medir a própria eficiência do sistema se torna mais difícil.

É nesse ponto que a cria deixa de ser apenas uma atividade reprodutiva e passa a exigir planejamento.

Porque uma fábrica de bezerros eficiente não é aquela onde simplesmente nascem muitos animais.

É aquela capaz de transformar, de maneira previsível, alimento, genética, manejo e matrizes em quilos de bezerros desmamados.

E previsibilidade exige calendário.

Talvez por isso, antes mesmo de discutir protocolos reprodutivos, inseminação, genética ou tecnologias mais sofisticadas, exista uma pergunta anterior.

Quando queremos que nossos bezerros nasçam?

A resposta não deveria começar no calendário.

Deveria começar no campo.

Porque definir quando uma vaca deve emprenhar depende de saber quando ela terá condições para fazê-lo.

E decidir quando queremos que um bezerro nasça depende de conhecer o ambiente que estará esperando por ele e por sua mãe.

No final, talvez a eficiência da reprodução comece muito antes de colocar o touro com as vacas ou iniciar um protocolo de inseminação.

Comece olhando para aquilo que sustenta todo o sistema:

a comida.

Porque não existe uma boa fábrica de bezerros sem planejamento.

E talvez também não exista uma boa estação de monta sem uma estação de pasto.


Bases técnicas consultadas: Embrapa Gado de Corte – publicações sobre eficiência produtiva e reprodutiva de sistemas de cria; Pesquisa Agropecuária Brasileira – estudos sobre eficiência de produção de bezerros e relação entre peso à desmama e peso da matriz; Revista Brasileira de Zootecnia – estudos sobre produtividade de matrizes, desempenho pré-desmama e eficiência da cria; literatura técnico-científica sobre estação de monta, condição corporal, mortalidade pré-desmama e eficiência reprodutiva de bovinos de corte.

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