Diego Trindade

No agro, promessa não basta: quem quer voto precisa mostrar serviço

Em ano eleitoral, o produtor precisa cobrar menos discurso e mais prestação de contas. Chegou novamente o período em que muitos candidatos descobrem que existe produtor rural. Aparecem nas feiras, nas exposições, colocam chapéu, tiram fotografia ao lado de máquinas, visitam propriedades e passam a repetir que “o agro é importante”. Mas a pergunta que […]

No agro, promessa não basta: quem quer voto precisa mostrar serviço

Em ano eleitoral, o produtor precisa cobrar menos discurso e mais prestação de contas.

Chegou novamente o período em que muitos candidatos descobrem que existe produtor rural.

Aparecem nas feiras, nas exposições, colocam chapéu, tiram fotografia ao lado de máquinas, visitam propriedades e passam a repetir que “o agro é importante”.

Mas a pergunta que precisa ser feita é outra: onde estavam essas pessoas nos últimos quatro anos?

Porque o produtor não precisa de visita em época de eleição. Precisa de representante quando a estrada está destruída, quando falta água, quando o crédito não chega, quando uma norma ambiental ameaça inviabilizar a atividade, quando a tributação aumenta, quando a insegurança jurídica aparece ou quando a burocracia impede quem produz de trabalhar.

É nessas horas que se conhece quem realmente tem compromisso com o campo.

O agro não pode continuar servindo apenas de cenário eleitoral

É muito fácil elogiar o produtor diante de uma plateia. Difícil é defender seus interesses quando existe pressão política, enfrentar uma votação impopular ou cobrar do próprio governo uma providência necessária.

Por isso, nesta eleição, discurso bonito deveria valer muito pouco. O que precisa ser colocado sobre a mesa é o histórico.

Qual projeto apresentou? Qual recurso ajudou a trazer? Qual problema ajudou a resolver? Que votação importante para o setor teve coragem de enfrentar? Quantas vezes esteve ao lado dos produtores quando não havia câmera, palanque ou eleição?

Se um candidato não consegue responder a essas perguntas, deveria explicar por que merece confiança agora.

Não existe espaço para oportunismo

O produtor precisa aprender a distinguir quem trabalha pelo setor de quem apenas aparece quando precisa de voto.

Visitar exposição agropecuária não é defender o agro. Publicar fotografia com produtor não é defender o agro. Fazer discurso exaltando quem produz não é defender o agro.

Defender o agro significa assumir posições quando elas custam politicamente. Significa enfrentar burocracias absurdas, defender segurança jurídica, combater excessos regulatórios, trabalhar por infraestrutura, crédito, recursos hídricos, defesa sanitária e condições reais de produção.

É muito fácil ser amigo do produtor durante a campanha. O que interessa é saber quem foi amigo do produtor durante o mandato.

Mandato não pode ser cheque em branco

Quem ocupa cargo público precisa entender uma coisa simples: mandato tem prestação de contas.

Deputado, senador, governador ou qualquer representante eleito não recebe quatro anos de silêncio do eleitor. Recebe quatro anos para entregar resultado.

Quem prometeu e não entregou precisa explicar. Quem sumiu precisa explicar. Quem votou contra interesses legítimos do setor precisa explicar. Quem só aparece em ano eleitoral também precisa explicar.

Política não pode continuar sendo uma atividade na qual se promete tudo durante três meses e depois se esquece do eleitor durante quatro anos.

O Ceará precisa cobrar ainda mais

No Ceará, essa cobrança deveria ser particularmente rigorosa.

Produzir no semiárido exige superar dificuldades que grande parte do país sequer conhece. Água, energia, logística, crédito, regularização, segurança jurídica, estradas, defesa sanitária e apoio à produção não são temas abstratos.

Eles determinam se uma propriedade continuará produzindo, gerando empregos e movimentando a economia dos municípios.

Por isso, quem quiser falar em nome do produtor cearense precisa demonstrar que conhece essa realidade. Não apenas durante a campanha, mas durante todo o mandato.

Representatividade precisa produzir resultado

Durante anos ouvimos que o agro precisa de maior representatividade política. É verdade.

Mas representatividade não pode significar apenas colocar mais pessoas dizendo que defendem o setor. Precisamos de resultado.

Não interessa apenas quantos parlamentares dizem apoiar o campo. Interessa quantos aparecem na hora da votação. Quantos apresentam projetos. Quantos enfrentam problemas. Quantos abrem portas. Quantos atendem produtores. Quantos conseguem transformar discurso em ação concreta.

Porque política também precisa ser medida por entrega.

Chega de fotografia. Mostrem o trabalho.

Antes de qualquer promessa nova, seria saudável que cada candidato apresentasse aquilo que já fez.

Menos discurso. Menos marketing. Menos fotografia. Mais prestação de contas.

O eleitor tem todo o direito de perguntar: o que você fez quando teve oportunidade de fazer?

Essa pergunta incomoda porque separa discurso de resultado. E talvez seja exatamente disso que a política brasileira esteja precisando.

O agro não precisa de salvadores. Não precisa de candidatos que descubram o campo três meses antes da eleição. Precisa de representantes sérios, preparados e presentes.

Quem fez, apresente o trabalho. Quem não fez, explique por quê. E quem passou anos distante do produtor não deveria imaginar que uma fotografia, um discurso ou uma visita de campanha será suficiente para apagar quatro anos de ausência.

O agro merece respeito durante o mandato inteiro, não apenas quando chega a hora de contar votos.

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