José Walfrido Monteiro Monteiro
Advogado | Graduando em Medicina Veterinária
Ex presidente da Associação dos Criadores do Ceará – ACC
Ex presidente do Núcleo Cearense de Criadores de Gado Pardo Suiço
Segundo Secretário da Associação Brasileira de Criadores de Gado Pardo Suiço – ABCGPS
Diretor do Núcleo Cearense de Criadores de Guzerá – NCCG
Membro Fundador do Encontro de produtores Rurais do Ceará – EPROCE
Fortaleza, 29 de maio de 2026
As exposições agropecuárias figuram entre os mais importantes espaços de valorização da pecuária nordestina. No Ceará, esses eventos cumprem papel relevante na difusão genética, na comercialização de animais e no intercâmbio técnico entre criadores. Contudo, participar de uma exposição tornou-se um desafio crescente e oneroso para produtores de todos os portes.
1. Preparação: meses de trabalho antes da pista
A preparação de um animal para julgamento começa, em média, de 60 a 120 dias antes do evento. O encabrestamento, a doma de pista e o arraçoamento diferenciado, com concentrados, suplementos minerais, vitaminas e volumosos de qualidade, elevam consideravelmente os custos. Em bovinos, a alimentação de um único animal de exposição pode facilmente ultrapassar milhares de reais no período preparatório, a depender da raça e da categoria.
Quando o temperamento do animal exige a contratação de um preparador profissional, os gastos sobem ainda mais.
2. Exigências sanitárias e logística
Os exames obrigatórios, como brucelose, tuberculose, anemia infecciosa equina e mormo, somados à emissão de GTA, atestados veterinários e vacinações, compõem outro bloco de despesas inescapável. São exigências necessárias, mas que pesam, sobretudo para quem leva vários animais à competição.
O transporte é outro gargalo. No Ceará, as distâncias entre municípios já são expressivas e, em períodos de maior concentração de feiras, o valor do frete animal sobe consideravelmente, sem contar combustível e alimentação da equipe.
3. O custo invisível do expositor
Hospedagem, transporte, alimentação, vestuário e dias afastados da propriedade são gastos pessoais do criador que raramente entram nas planilhas de custo, mas existem e precisam ser considerados. Muitos eventos duram uma semana ou mais, exigindo dedicação quase integral de quem expõe.
4. Premiações que não fecham a conta
O ponto mais sensível para os criadores é o baixo retorno financeiro das premiações. Em boa parte das exposições cearenses, os valores pagos aos campeões não cobrem sequer uma fração dos custos envolvidos. Troféus e faixas têm valor simbólico reconhecido, mas são insuficientes para justificar, por si sós, os altos investimentos realizados.
5. Vale a pena participar?
Apesar das dificuldades, as exposições continuam sendo vitrines insubstituíveis para o setor. O animal premiado valoriza o plantel, abre mercado para sêmen e embriões, fortalece a marca da propriedade e amplia o relacionamento com criadores e técnicos. O retorno, quando acontece, é indireto, mas pode ser significativo.
O problema é que esse modelo começa a afastar justamente quem mais precisa estar presente: o pequeno e médio produtor, sem estrutura para absorver os prejuízos de uma participação mal remunerada.
6. O que precisa mudar
A sustentabilidade das exposições agropecuárias no Ceará passa, necessariamente, por maior apoio institucional, por premiações compatíveis com os investimentos realizados e por incentivos concretos à participação de produtores de menor porte. Sem esse equilíbrio, o risco é concreto: menos expositores, menor qualidade genética em pista e exposições progressivamente esvaziadas.
Os criadores são os verdadeiros responsáveis pelo nível técnico desses eventos. Já está na hora de as exposições retribuírem à altura.
Diante de tal cenário, é mister discutir meios de fortalecimento das exposições Agropecuárias no Ceará. Necessitamos urgentemente ampliar o apoio institucional, buscar maior participação de patrocinadores, melhorar premiações e criar incentivos para pequenos e médios criadores.
Também se faz necessária uma maior e mais forte união entre criadores, associações e entidades do setor, que nos leve a fomentar as discussões mais amplas sobre os desafios enfrentados nas exposições Agropecuárias. O debate qualificado e com a participação de criadores, pode contribuir para construção de soluções mais viáveis, capazes de ampliar a participação de criadores em exposições, reduzir custos e fortalecer ainda mais a pecuária cearense.











