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Tecnologia no campo cresce no Ceará, mas exige cuidado

O Ceará ganhou uma ferramenta que poucos produtores sabiam que precisavam: a plataforma Terra.Ce, lançada pelo Governo do Estado para reunir, num só lugar, dados georreferenciados sobre a malha fundiária cearense. Informações que antes estavam espalhadas em sistemas do Idace, do Incra e do IBGE, sem conversar entre si, passaram a habitar um único ambiente […]

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O Ceará ganhou uma ferramenta que poucos produtores sabiam que precisavam: a plataforma Terra.Ce, lançada pelo Governo do Estado para reunir, num só lugar, dados georreferenciados sobre a malha fundiária cearense. Informações que antes estavam espalhadas em sistemas do Idace, do Incra e do IBGE, sem conversar entre si, passaram a habitar um único ambiente digital, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará.

É um exemplo pequeno, mas revelador. A tecnologia no campo deixou de ser promessa distante e virou ferramenta de trabalho: plataformas de dados, sensores de irrigação, aplicativos de gestão, mapas que cruzam informação em tempo real. Mas o mesmo avanço que abre oportunidades também levanta uma pergunta incômoda: quem consegue, de fato, usar essa tecnologia no campo?

Tecnologia no campo: os números do avanço

Pesquisa do Sistema Famasul mostrou que o uso de agricultura de precisão pode elevar a produtividade em até 29% e reduzir em 23%, em média, os gastos com insumos. No Ceará, essa transformação já tem endereço certo: o Vale do Jaguaribe registra 72% de cobertura de internet nas áreas produtivas, um dos maiores índices do Nordeste, puxado pelos polos de irrigação da região.

“A conectividade rural é a chave para viabilizar a agricultura de precisão”, resume Paola Campiello, à frente do estudo ConectarAGRO, que mapeou o avanço da internet no campo brasileiro. No governo estadual, o discurso segue a mesma direção. O secretário executivo do Agronegócio da SDE, Sílvio Carlos, tem defendido que agregar valor à produção cearense, da carcinicultura à fruticultura, passa por investir em tecnologia e infraestrutura logística, num estado que já responde por mais da metade do camarão consumido no Brasil.

O cuidado que a tecnologia exige

Só que esse avanço não chega igual para todo mundo. Levantamento da KPMG com a Sociedade de Engenheiros da Mobilidade do Brasil apontou que apenas 16% das propriedades rurais do país têm internet de qualidade. Dados do IBGE mostram outro entrave: em 26% dos domicílios rurais, ninguém sabe usar a internet, mesmo quando ela está disponível.

Existe ainda uma barreira de escala. Estudos sobre conectividade no campo indicam que a cobertura mínima viável para uma infraestrutura de internet rural gira em torno de 15 mil hectares contínuos. Para o grande produtor, isso costuma caber no orçamento. Para o pequeno produtor, a saída é se juntar a outros em consórcio, o que aumenta a complexidade e o custo de coordenar contratos entre várias propriedades. A mesma tecnologia que promete reduzir desigualdade no campo pode, sem planejamento, aprofundá-la.

O que muda, quem ganha e quem precisa se adaptar

Quem já está conectado, como os polos irrigados do Jaguaribe, sai na frente: toma decisões com mais dado e menos achismo. Quem está disperso, sem sinal de qualidade e sem formação digital, corre o risco de ficar de fora justamente da geração de ferramentas que promete baratear a produção.

Isso não significa que a tecnologia deva ser vista com desconfiança. Significa que ela precisa vir acompanhada de política pública, capacitação e infraestrutura compartilhada, não apenas de lançamento de plataforma. O dado ajuda a decidir melhor. Mas quem decide, no fim, continua sendo o produtor: é ele quem lê a terra, a água e o momento certo de agir.

Nos próximos ciclos agrícolas, a diferença entre quem colhe os benefícios da tecnologia no campo e quem fica para trás vai depender menos da tecnologia em si e mais de quem teve acesso a ela primeiro.

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