Entre junho e janeiro, o sertão de Ocara não vê chuva, e é nesse período que uma boa rotação de pastagem faz a diferença. Sem ela, o capim seca, perde a cor verde e a maioria das fazendas de pecuária do Ceará vê o rebanho perder peso. Em casos mais graves, o produtor ainda precisa comprar ração de fora para sustentar o gado.
O agrônomo Abidênago Cavalcante decidiu resolver esse problema com uma rotação de pastagem. Ele administra, junto com Ronald Andrade, uma fazenda no sertão de Ocara e apresentou o método durante o EPROCE de setembro.
Por que o capim seco não alimenta
A explicação começa na folha. Quando o pasto está verde, ele tem clorofila, e a clorofila carrega nitrogênio. Assim, quando o boi digere esse nitrogênio, as bactérias do rúmen o transformam em amônia. Dessa forma, o processo melhora a digestão do animal e aumenta o ganho de peso. É por isso que, no período chuvoso, o bezerro engorda com mais facilidade.
O problema é que, quando chega o verão, o capim seca e perde boa parte desse nitrogênio. Por isso, segundo Abidênago, toda fazenda deveria ter uma estratégia de suplementação mineral diferente para cada período do ano. No período seco, por exemplo, o ideal é oferecer proteinado à base de ureia, com cerca de 46% de nitrogênio. Ainda assim, muitas propriedades cearenses não fazem essa troca: mantêm a mesma formulação de sal mineral o ano inteiro.
A rotação de pastagem que triplica a colheita do mesmo hectare
Mas a suplementação mineral é só parte da solução. Além disso, o centro do método está na forma como a fazenda colhe o pasto ao longo do período chuvoso. Em vez de deixar o gado pastejar livremente uma única vez por área, a fazenda divide a propriedade em setores. Assim, parte do capim recebe colheita mecanizada e vira silagem, enquanto o gado pasteja de forma rotacionada nas outras áreas.
Segundo os cálculos apresentados, a fazenda pode colher um hectare bem manejado até três vezes durante o período chuvoso. Primeiro, a colheita acontece de forma mecanizada, logo no início das chuvas. Em seguida, a fazenda também colhe mecanicamente a segunda rebrota. Por fim, o produtor deixa a terceira rebrota para o gado pastejar diretamente. Ou seja, a fazenda triplica o volume de forragem a partir do mesmo hectare e do mesmo investimento em correção de solo e adubação. “Se tu consegue colher três vezes com capim de qualidade, tu triplica o teu comportamento com o mesmo custo”, resumiu Abidênago durante a apresentação.
Na prática, essa rotação forma uma reserva de silagem ainda durante o período chuvoso. Depois, a fazenda usa essa reserva para atravessar os meses secos sem depender de ração comprada de fora. Com esse método, a dupla apresentou uma meta ousada: alcançar 2,5 unidades animais por hectare no sertão de Ocara. Esse número é mais que o dobro da média nacional em pastagem cultivada, que gira em torno de 1 unidade animal por hectare.
O que muda para quem convive com a seca todo ano
Para o produtor cearense, o valor prático dessa técnica está em não depender de sorte com a chuva. Afinal, a seca de vários meses por ano não é exceção no sertão, é regra. Por isso, fazendas sem planejamento para esse período tendem a perder peso do rebanho ou gastar mais comprando ração externa. O problema, aliás, chega justamente na fase em que o caixa está mais apertado.
Quem adota a rotação de pastagem e a suplementação sazonal, portanto, ganha previsibilidade. Ainda durante as chuvas, já sabe quanto de forragem vai guardar para os meses secos. Já quem não adota continua refém do calendário da chuva, torcendo para que o período seco não se estenda além do esperado.
Um método de rotação de pastagem fácil de replicar
Abidênago fez questão de destacar que o investimento inicial é baixo. Por exemplo, uma análise de solo, que custa cerca de R$ 80, orienta a correção com calcário e adubação. No total, o custo fica entre R$ 300 e R$ 400 por hectare.
Não é, portanto, um pacote tecnológico caro. É, na verdade, uma mudança de manejo e planejamento. Por isso, a técnica funciona tanto em grandes propriedades quanto na pequena pecuária do sertão do Ceará.












