Vozes do Agro

Cultivo de figo no sertão transforma famílias e fortalece o Ceará rural

Família Kimura encontra propósito de vida no Ceará e faz do figo um símbolo de esperança no campo O cultivo de figo no sertão começa antes mesmo do sol nascer em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. Entre fileiras verdes que contrastam com a paisagem seca do semiárido, o senhor Takeo Kimura observa os […]

Família Kimura cultivando figo no sertão cearense

Família Kimura encontra propósito de vida no Ceará e faz do figo um símbolo de esperança no campo

O cultivo de figo no sertão começa antes mesmo do sol nascer em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. Entre fileiras verdes que contrastam com a paisagem seca do semiárido, o senhor Takeo Kimura observa os pés de figo como quem contempla uma missão construída pela própria vida. Aos quase 90 anos, ele caminha devagar entre as plantações enquanto os filhos seguem trabalhando na colheita que hoje já abastece mercados de estados como São Paulo, Goiás e Brasília.
A história da família Kimura começou muito longe dali. Japoneses de origem, Takeo e Nobui chegaram ao Ceará em 2019 movidos por um desejo simples e profundo: fazer algo pelo Nordeste brasileiro. Depois de décadas construindo a vida em São Paulo e criando os oito filhos, o casal decidiu transformar o sertão em um novo lar.
Em vez de enxergar apenas as dificuldades do semiárido, a família viu potencial. O calor intenso, os ventos fortes e os desafios hídricos se tornaram parte de um aprendizado diário que exigiu adaptação, observação e persistência.

Figo no semiárido exige adaptação e conhecimento de campo

O cultivo de figo no Ceará não aconteceu de forma imediata. Antes das primeiras colheitas, houve anos de testes, análises de solo e estudos sobre irrigação, manejo e resistência da planta ao clima nordestino.
A variedade escolhida pela família foi a Roxo de Valinhos, tradicionalmente cultivada em regiões do Sudeste. No entanto, o comportamento da planta no sertão exigiu mudanças importantes no sistema de produção.
O modelo tradicional em formato de taça precisou ser substituído por estruturas espaldeiradas para enfrentar os ventos constantes da região. A mudança melhorou o manejo, facilitou a colheita e aumentou a resistência dos galhos.
A estratégia da família também passou a aproveitar uma vantagem natural do Nordeste. Enquanto outras regiões enfrentam escassez de figo em determinadas épocas do ano, o semiárido cearense consegue produzir durante períodos estratégicos do mercado nacional.
Com poda iniciada em março, a colheita acontece entre julho e dezembro, permitindo que a fruta cearense alcance centros consumidores justamente quando a oferta diminui em outros estados.

Agricultura familiar fortalece sonho coletivo no sertão

Se os figos ganharam espaço no mercado, a força da família foi o que sustentou o projeto nos momentos mais difíceis.
O filho Fernando Kimura lembra que, no início, apenas ele e o pai estavam no Ceará. Aos poucos, os irmãos passaram a contribuir financeiramente, investir tempo no projeto e dividir responsabilidades para manter vivo o sonho do patriarca.
A união familiar virou combustível para enfrentar os desafios da adaptação ao sertão, desde a alimentação até a logística de distribuição da produção.
Nos primeiros anos, o maior obstáculo não era produzir, mas vender. Foi somente após estabelecer contatos com atravessadores e pequenos comerciantes de Fortaleza que o projeto começou a ganhar estabilidade.
Hoje, a família busca negociar diretamente com redes comerciais de diferentes estados. A produção já atravessa fronteiras e demonstra como a agricultura familiar no semiárido pode alcançar mercados distantes sem perder suas raízes.
Mais do que uma atividade econômica, o cultivo se transformou em propósito de vida.
A palavra japonesa “Ikigai”, citada pelos próprios Kimura durante a reportagem, representa justamente essa ideia de encontrar sentido naquilo que se faz. Para a família, produzir figos no sertão significa gerar oportunidades, fortalecer a comunidade e acreditar em um futuro mais próspero para a região.

Semiárido cearense revela novas possibilidades para o agro

A experiência da família Kimura ajuda a ampliar o olhar sobre o potencial produtivo do semiárido brasileiro. Durante décadas, o sertão foi associado apenas à seca e às limitações climáticas.
Hoje, projetos como o de Tabuleiro do Norte mostram que conhecimento técnico, manejo adequado e planejamento podem transformar realidades.
O cultivo de frutas adaptadas ao clima nordestino vem crescendo em diferentes regiões do Ceará, impulsionando pequenos e médios produtores que buscam alternativas de renda e diversificação agrícola.
Além do impacto econômico, histórias como essa ajudam a aproximar o consumidor urbano da verdadeira realidade do campo. Por trás de cada fruta comercializada existe uma trajetória marcada por coragem, adaptação e trabalho coletivo.
A presença da família Kimura no sertão também revela um encontro simbólico entre culturas. O conhecimento agrícola trazido da tradição japonesa encontrou no Nordeste brasileiro uma nova forma de florescer.
Em meio às dificuldades climáticas, o projeto mostra que prosperidade no campo não nasce apenas da terra. Ela nasce da capacidade humana de permanecer, aprender e acreditar.
No fim da tarde, quando o vento volta a soprar sobre os figueirais de Tabuleiro do Norte, Takeo Kimura segue observando cada detalhe da plantação. Talvez porque, para ele, aqueles frutos representem mais do que produção agrícola.
Representam a prova silenciosa de que o sertão continua ensinando ao Brasil que resistência também pode dar frutos doces.
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