Distante dos grandes centros tradicionais da criação equina, o Ceará transforma Canindé em referência nacional no mercado de cavalos de corrida e vaquejada
Entre baias, vaquejadas e memórias de infância, um criador do Sertão Central mantém viva a paixão que começou com um presente do pai
O Haras Primavera nasceu do amor de um menino por cavalos. Aos 10 anos, ainda criança, Rafael Leal ganhou do pai o primeiro animal da vida. Décadas depois, caminhando entre baias, pastos e garanhões premiados em Canindé, no Sertão Central do Ceará, ele segue alimentando a mesma paixão que começou na infância.
O sol ainda nem dominava completamente a paisagem quando Rafael atravessou os corredores do Aras observando cada detalhe da rotina. Alguns animais descansavam silenciosos. Outros aguardavam treinamento. Os potros mais jovens acompanhavam atentos os movimentos da equipe. Em cada espaço da propriedade existe uma relação construída no tempo, feita de dedicação diária, investimento e convivência.
“Meu pai era médico, mas criador de gado de leite. Quando eu tinha 10 anos, ele me presenteou com um cavalo. Essa paixão perdurou até hoje”, relembra Rafael.
Foi dessa memória afetiva que surgiu o Haras Primavera, fundado em 2005. Desde então, o espaço se tornou referência no mercado equino nordestino, principalmente na criação de cavalos voltados para corrida e vaquejada.
Criação de cavalos fortalece o agro no Sertão Central
No Ceará, a força da criação equina ainda surpreende quem associa o mercado de cavalos apenas aos estados do Sul e Sudeste. Em Canindé, porém, o Haras Primavera mostra como o semiárido também se consolidou como território de genética, performance e negócios rurais.
O trabalho realizado ali envolve reprodução assistida, acompanhamento veterinário constante, seleção genética e comercialização de animais para diversas modalidades esportivas.
Rafael acompanha cada etapa de perto. Conhece o temperamento dos cavalos, observa características físicas e participa pessoalmente das decisões do plantel.
“Foi muita luta, muita dedicação. Primeiro tem que ter amor. Segundo, muita perseverança. Porque tudo é muito difícil”, conta.
O mercado exige resultados rápidos, mas a criação de cavalos depende de tempo, paciência e planejamento. Cada potro só é comercializado após cerca de dois anos de acompanhamento. Antes disso, existe todo um processo silencioso que começa ainda na gestação das éguas.
Tecnologia e genética impulsionam o mercado equino
Dentro do Haras, ciência e tradição caminham juntas. A reprodução dos animais acontece com apoio de inseminação artificial, exames de ultrassom e monitoramento veterinário frequente.
Valnício, profissional responsável pelo acompanhamento reprodutivo, explica que o objetivo é garantir qualidade genética e melhores resultados esportivos.
“O nosso trabalho é acompanhar o ciclo desses animais para encontrar o melhor momento para inseminar, coletar embrião e gerar os produtos que o Haras precisa”, explica.
No campo brasileiro, o avanço da tecnologia também chegou ao mercado equino. O uso de reprodução assistida permite ampliar a qualidade genética dos plantéis e fortalecer economicamente propriedades especializadas.
Mas, no Haras Primavera, a tecnologia não substitui o olhar humano. Rafael ainda escolhe pessoalmente o nome de cada animal. Existe uma lógica organizada por letras do alfabeto, mas a decisão final nasce da afinidade.
“Eu vejo a morfologia do animal, procuro um nome que combine com ele. Tenho cavalos com nome de países, pessoas e referências que marcaram minha vida”, diz.
A tradição da vaquejada e o futuro da família rural
A vaquejada também ocupa lugar importante dentro da história do Aras. Antes de se dedicar integralmente à criação, Rafael passou anos competindo nas pistas do Nordeste.
Hoje, alguns dos principais garanhões da propriedade possuem linhagens voltadas justamente para a modalidade, tradição profundamente ligada à identidade cultural do sertão nordestino.
Entre os animais mais admirados está o Apeels King Special, garanhão importado dos Estados Unidos e considerado uma das grandes referências genéticas do Haras. Outro destaque é Milênio Ápice, nascido em Canindé e campeão em torneios nordestinos.
Mas talvez o maior símbolo de continuidade esteja longe dos leilões e das pistas. Aos 10 anos, a mesma idade em que Rafael ganhou o primeiro cavalo, o filho mais novo já monta sozinho e participa da rotina do Haras.
“Ele começou a montar aos quatro anos. Hoje já é um vaqueirinho”, conta o criador, sorrindo.
A cena resume muito do que representa o Vozes do Agro. No interior do Ceará, entre cavalos premiados, genética de ponta e negócios milionários, existe também algo impossível de medir em números: a transmissão silenciosa da cultura rural entre gerações.
Em Canindé, o cavalo não é apenas um ativo econômico. Ele é memória, identidade e permanência. E enquanto houver alguém disposto a ensinar uma criança a montar pela primeira vez, parte importante da história do campo brasileiro continuará galopando pelo sertão.











