Diego Trindade

Agro cearense cresce menos que o Brasil: os números acendem um alerta para o Estado

Os números não têm ideologia. E, quando analisamos a trajetória econômica do Ceará em comparação com o Brasil, há um dado que merece atenção especial de quem produz, investe e gera empregos no campo: no período mais recente analisado, a agropecuária cearense cresceu abaixo da média nacional. O levantamento apresentado, construído a partir de séries […]

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Os números não têm ideologia. E, quando analisamos a trajetória econômica do Ceará em comparação com o Brasil, há um dado que merece atenção especial de quem produz, investe e gera empregos no campo: no período mais recente analisado, a agropecuária cearense cresceu abaixo da média nacional.

O levantamento apresentado, construído a partir de séries anuais e taxas de crescimento anual composto (CAGR), divide a evolução econômica em três períodos: 1985-1997, 1997-2010 e 2010-2023.

Entre 2010 e 2023, a agropecuária brasileira apresentou crescimento anual composto de 4,10%, enquanto a agropecuária cearense registrou 2,79% ao ano. A diferença é de 1,31 ponto percentual por ano.

Quando uma diferença dessa magnitude se repete durante mais de uma década, ela produz um distanciamento econômico significativo. Uma atividade crescendo 4,10% ao ano durante 13 anos acumularia aproximadamente 69% de expansão, enquanto uma atividade crescendo 2,79% ao ano acumularia cerca de 43%, considerando apenas o efeito matemático dessas taxas compostas.

O Brasil acelerou no agro. O Ceará não acompanhou no mesmo ritmo

PeríodoAgropecuária CearáAgropecuária Brasil
1985-1997-11,23%-8,41%
1997-20108,11%5,93%
2010-20232,79%4,10%

Entre 1985 e 1997, o agro cearense sofreu uma retração extremamente forte, de 11,23% ao ano, superior à retração brasileira de 8,41%. Depois veio uma recuperação expressiva. Entre 1997 e 2010, o Ceará cresceu 8,11% ao ano, superando os 5,93% registrados pelo Brasil.

Mas a situação se inverte novamente no período mais recente. De 2010 a 2023, enquanto o Brasil registrou 4,10% ao ano, o Ceará ficou em apenas 2,79%.

Essa comparação merece ainda mais atenção porque o próprio IBGE mostra a força que a agropecuária assumiu na economia brasileira. Na revisão das Contas Nacionais referente a 2023, o Instituto registrou crescimento de 16,3% da agropecuária brasileira naquele ano, muito acima dos 1,7% da indústria e 2,8% dos serviços.

O problema não é falta de potencial

Seria fácil justificar essa diferença exclusivamente pelo clima do Ceará. Seria também um erro. É evidente que produzir no semiárido impõe desafios que boa parte do Centro-Oeste e do Sul do Brasil não enfrenta. Segurança hídrica, irregularidade das chuvas e características do solo fazem parte da realidade cearense.

Mas o Ceará possui vantagens competitivas extraordinárias. Tem localização geográfica estratégica, proximidade com Europa e América do Norte, portos, produção irrigada, fruticultura, carcinicultura, pecuária, avicultura, leite, mel, flores e enorme possibilidade de integração entre produção agropecuária, indústria e exportação.

Dados do IPECE também demonstram capacidade de expansão. Entre 2010 e 2021, o crescimento acumulado em volume do valor adicionado da agropecuária cearense foi de 49,90%. Na pecuária, o avanço acumulado chegou a 63,76%, contra 12,79% no Brasil naquele recorte específico.

O produtor cearense consegue produzir e crescer quando encontra condições para isso. A pergunta correta é: por que o Ceará não consegue transformar todo esse potencial em crescimento sustentado no mesmo ritmo do agro brasileiro?

Indústria praticamente parada

Entre 2010 e 2023, a indústria cearense registrou crescimento anual composto de apenas 0,06%, enquanto o Brasil registrou 0,71%. Na prática, segundo a série apresentada, a indústria cearense permaneceu praticamente estagnada durante mais de uma década.

Isso interessa diretamente ao produtor rural. Agro forte não existe isoladamente. Precisamos de agroindústria para processar leite, carne, frutas, pescado, castanha, mel e inúmeros outros produtos dentro do próprio Estado. Quanto maior a industrialização da produção rural dentro do Ceará, maior o valor agregado, maior a geração de empregos e menor a dependência da simples comercialização de matéria-prima.

Serviços cresceram mais no Ceará, mas também perderam velocidade

No setor de serviços, o Ceará apresentou desempenho superior ao Brasil nos três períodos analisados. Entre 2010 e 2023, foram 1,77% ao ano no Ceará contra 1,30% no Brasil. Anteriormente, entre 1997 e 2010, os serviços cearenses haviam crescido 5,57% ao ano. Portanto, mesmo permanecendo acima do Brasil, houve forte desaceleração.

O Ceará precisa decidir se quer realmente ser um Estado produtor

O debate sobre o agro cearense precisa deixar de ser apenas institucional e passar a ser econômico. Não basta realizar eventos, fazer discursos ou dizer que o produtor rural é importante. É necessário criar condições concretas para que ele produza.

Isso significa enfrentar problemas conhecidos: segurança hídrica, energia no campo, estradas, conectividade rural, assistência técnica, crédito, regularização fundiária e ambiental, segurança jurídica, defesa sanitária, infraestrutura de armazenamento e estímulo à agroindustrialização.

O Brasil mostrou nas últimas décadas que agropecuária competitiva pode transformar regiões inteiras. O Ceará não precisa copiar Mato Grosso, Goiás ou Mato Grosso do Sul. Temos outra realidade climática, fundiária e produtiva. Precisamos construir o nosso próprio modelo de agro: adaptado ao semiárido, tecnologicamente avançado, eficiente no uso da água, integrado à indústria e conectado aos mercados consumidores nacionais e internacionais.

Os números devem servir para cobrar resultados

É importante deixar claro que esses dados não significam que o agro cearense esteja condenado ao baixo crescimento. Muito pelo contrário. Há sinais recentes positivos. Estimativas apresentadas pelo IPECE e pelo IBGE para 2025 apontavam expansão relevante da produção de grãos no Ceará, com altas estimadas de 42,65% no feijão, 37,13% no milho e 36,52% no total de grãos, na comparação com 2024.

Isso demonstra exatamente o tamanho da oportunidade. Quando clima, tecnologia, investimento e condições produtivas convergem, o campo cearense responde. Mas políticas públicas não podem depender da chuva. Precisamos transformar bons anos agrícolas em uma trajetória permanente de crescimento.

Entre 2010 e 2023, a agropecuária brasileira avançou, pela série apresentada, 4,10% ao ano. O Ceará, 2,79%. A diferença está colocada. Agora cabe ao Estado, às instituições, às lideranças e também aos próprios produtores discutir como fechá-la.

O produtor rural cearense já demonstrou que sabe produzir. O que precisamos é garantir condições para que ele possa produzir mais, investir mais e competir em igualdade de condições.

Porque fortalecer o agro não é beneficiar apenas quem está dentro da porteira. É gerar emprego, renda, alimento, arrecadação e desenvolvimento para todo o Ceará.

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